Fichamento de 9 PDFs — Cidades do Agronegócio, Capital Social, Cooperativismo e Sociabilidade

Fichamento de 9 artigos acadêmicos sobre cidades do agronegócio brasileiro, capital social, cooperativismo e transformação religiosa (Elias, Elias & Pequeno, Frederico, Costa et al., Mueller, Ferreira & Pessoa, Jacob, Serra et al., Fioravanti), elaborado em 31/03/2026 para subsidiar o livro sobre a Nova República.

Para o vault, o corpus fornece base empírica para o argumento de que a democracia brasileira distribui reconhecimento (thymos) de forma radicalmente desigual no território. As mesmas regiões de fronteira agrícola descritas por Elias e Frederico são as de maior avanço pentecostal (Jacob): onde o capital social comunitário é fraco, a igreja evangélica preenche o vazio do pertencimento. O caso extremo é Primavera do Leste (Fioravanti): uma cidade onde o capital social é denso mas exclusivo — coeso entre “pioneiros”, violento com migrantes nordestinos e negros chamados de “pés-inchados”.

Os 9 textos convergem para três achados: (1) cidades do agronegócio combinam dinamismo econômico com desigualdade estrutural severa; (2) capital social não é variável mágica — Mueller demonstra que capital social local não prediz desenvolvimento econômico porque as forças que determinam emprego e renda estão fora do controle comunitário; (3) o cooperativismo está concentrado no Sul-Sudeste (31,1% dos estabelecimentos associados a cooperativas no Sul contra 4,4% no Norte), reproduzindo desigualdades regionais. A síntese: o Brasil tem formas de organização social territorialmente desiguais, e isso afeta quem tem voz na democracia.

Data de elaboração: 31/03/2026


1. ELIAS, Denise. Agronegócio e novas regionalizações no Brasil. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 13, n. 2, p. 153-167, 2011.

Argumento central

O agronegócio globalizado reestrutura o território brasileiro, criando novas regionalizações que não correspondem mais às divisões administrativas tradicionais. Elias propõe o conceito de Regiões Produtivas do Agronegócio (RPAs) para dar conta dessas novas configurações espaciais, marcadas pela difusão do meio técnico-científico-informacional no campo e pela emergência de cidades que funcionam como nós de comando da produção agrícola moderna.

Principais achados e evidências

  • A reestruturação produtiva da agropecuária a partir dos anos 1970 impõe uma nova lógica espacial ao território brasileiro, com a formação de espaços agrários altamente racionalizados e conectados aos circuitos globais de commodities.
  • As RPAs são compostas tanto por espaços agrários quanto urbanos, articulados por fluxos de capital, tecnologia e informação. As cidades que servem a essas regiões — mesmo pequenas e médias — tornam-se funcionais para a reprodução do capital agroindustrial.
  • O conceito de “cidade do agronegócio” designa os núcleos urbanos cuja economia e função urbana são determinadas pela agricultura científica globalizada. Estas cidades concentram comércio e serviços especializados, firmas de consultoria, revendas de insumos, instituições financeiras e mão de obra qualificada voltada para o campo.
  • Há uma aceleração da urbanização nas áreas de expansão do agronegócio (cerrados do Nordeste, Centro-Oeste, MATOPIBA), com crescimento demográfico intenso e formação de periferias precárias.

Metodologia

Ensaio teórico-conceitual, com base em extensa revisão bibliográfica da geografia agrária e urbana brasileira, dados dos censos e referência a trabalhos empíricos anteriores da própria autora no Ceará, Rio Grande do Norte e Mato Grosso.

Sobre capital social, comunidade e organizações em cidades médias/agrícolas

O texto não trabalha diretamente com o conceito de capital social, mas é rico em implicações para o tema. Elias mostra que as cidades do agronegócio são marcadas por uma intensa desigualdade socioespacial: coexistem profissionais altamente qualificados (agrônomos, gestores, consultores) com massas de trabalhadores precários e migrantes. A sociabilidade nessas cidades é estruturada pela lógica do agronegócio, com pouco espaço para formas autônomas de organização comunitária. As instituições locais — câmaras de comércio, sindicatos patronais, associações de produtores — tendem a ser capturadas pelos interesses do grande capital agroindustrial. A identidade local é frequentemente construída em torno do “progresso” e da produtividade agrícola.

Relevância para o livro

O conceito de RPAs e de “cidades do agronegócio” é fundamental para pensar o grupo social do agronegócio como um dos cinco grupos da sociedade brasileira. Elias oferece um mapa da reorganização territorial do Brasil contemporâneo que vai além das divisões tradicionais (litoral/sertão, Sul/Norte) e mostra como a agricultura globalizada produz novas hierarquias e novas formas de pertencimento. Para a discussão sobre thymos e reconhecimento, o texto abre a questão de como as cidades do agronegócio constroem uma narrativa de “progresso” que exclui e invisibiliza trabalhadores precários, migrantes e populações tradicionais.


2. ELIAS, Denise; PEQUENO, Renato. Desigualdades socioespaciais nas cidades do agronegócio. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 9, n. 1, p. 25-39, 2007.

Argumento central

As cidades do agronegócio, apesar de seu dinamismo econômico e modernização produtiva, reproduzem e intensificam desigualdades socioespaciais. Longe de representarem um modelo virtuoso de desenvolvimento, essas cidades combinam riqueza concentrada com pobreza estrutural, segregação urbana e precarização das condições de vida da maioria da população.

Principais achados e evidências

  • A modernização agrícola atrai migrantes, mas gera poucos empregos urbanos qualificados. O resultado é uma massa de trabalhadores sem qualificação que se instala em periferias precárias, sem infraestrutura básica.
  • Os autores analisam indicadores de Mossoró (RN), Limoeiro do Norte (CE) e outras cidades do agronegócio nordestino, evidenciando altos índices de desigualdade de renda, carência de saneamento e segregação residencial.
  • O crescimento urbano acelerado não é acompanhado por investimentos públicos proporcionais em saúde, educação e habitação. A gestão municipal tende a priorizar infraestrutura produtiva (estradas, armazéns, distritos industriais) em detrimento de serviços sociais.
  • A especulação imobiliária intensifica a segregação: áreas próximas aos perímetros irrigados ou aos eixos rodoviários valorizam-se rapidamente, expulsando a população pobre para áreas distantes e mal servidas.

Metodologia

Estudo comparativo de cidades do agronegócio no Nordeste brasileiro, combinando dados censitários (IBGE), indicadores de desenvolvimento humano e pesquisa de campo com entrevistas e observação direta.

Sobre capital social, comunidade e organizações

O artigo evidencia que o dinamismo econômico do agronegócio não se traduz em capital social comunitário. Pelo contrário, a alta rotatividade da mão de obra, a migração intensa e a segregação espacial tendem a enfraquecer laços comunitários. As organizações existentes (sindicatos rurais, associações de produtores) representam prioritariamente os interesses dos grandes produtores. A população pobre e periférica tem baixo grau de organização e pouca capacidade de influenciar as decisões sobre o espaço urbano.

Relevância para o livro

Texto essencial para mostrar que o “sucesso” do agronegócio brasileiro não resolve a questão do reconhecimento (thymos) para a maioria da população dessas cidades. O contraste entre a riqueza gerada pelo campo e a pobreza urbana oferece material para discutir a desigualdade estrutural da democracia brasileira e a questão de quem se beneficia do modelo de desenvolvimento vigente.


3. FREDERICO, Samuel. As cidades do agronegócio na fronteira agrícola moderna brasileira. Caderno Prudentino de Geografia, n. 34, p. 5-23, 2012.

Argumento central

As cidades situadas na fronteira agrícola moderna brasileira — sobretudo no Centro-Oeste e MATOPIBA — constituem um tipo urbano específico, funcional à reprodução do capital agroindustrial globalizado. Frederico argumenta que essas cidades são nós de uma rede corporativa que conecta o território brasileiro aos circuitos globais de commodities, e que sua dinâmica urbana é determinada mais pelas lógicas extralocais do mercado mundial do que pelas necessidades de seus habitantes.

Principais achados e evidências

  • As cidades da fronteira agrícola moderna são resultado da expansão da soja, algodão e milho para os cerrados a partir dos anos 1970-1980, impulsionada por políticas estatais (PRODECER, subsídios ao crédito rural) e pela ação de grandes empresas transnacionais (Cargill, Bunge, ADM, Louis Dreyfus).
  • Essas cidades são “cidades corporativas” (conceito de Milton Santos): sua estrutura urbana — infraestrutura de transporte, armazéns, unidades de processamento — é moldada para atender às necessidades das corporações do agronegócio, não da população local.
  • O PIB per capita elevado dessas cidades mascara uma distribuição de renda extremamente desigual.
  • Frederico identifica um padrão de urbanização recente e acelerada, com planejamento urbano insuficiente e forte dependência das oscilações do mercado internacional de commodities.

Metodologia

Análise geográfica com base em dados do IBGE, complementada por levantamento bibliográfico e cartografia temática.

Sobre capital social, comunidade e organizações

O texto implica que o capital social nessas cidades é funcional ao agronegócio — redes de produtores, cooperativas de crédito, associações comerciais — e não necessariamente comunitário no sentido putnamiano. As cooperativas existentes são, em geral, grandes cooperativas empresariais que funcionam mais como firmas do que como associações comunitárias.

Relevância para o livro

A questão das “cidades corporativas” conecta-se diretamente à tese do livro sobre quem fala por quem: nessas cidades, quem fala são os agentes do capital agroindustrial, não a população que nelas vive.


4. COSTA, R. A. et al. O cooperativismo na dinâmica econômica e social da agropecuária brasileira. In: VIEIRA FILHO, J. E.; GASQUES, J. G. (Org.). Agricultura e diversidades. Brasília: IPEA, 2021. Cap. 6, p. 371-397.

Argumento central

O cooperativismo agropecuário brasileiro desempenha um papel relevante na organização da produção, na inserção dos produtores nos mercados e na redução de desigualdades no campo, mas apresenta forte heterogeneidade regional: está concentrado no Sul e Sudeste, com penetração ainda limitada no Norte, Nordeste e em parte do Centro-Oeste.

Principais achados e evidências

  • O Brasil contava com 1.223 cooperativas agropecuárias filiadas à OCB em 2019, com cerca de 1 milhão de cooperados e 209 mil empregados.
  • A participação de cooperativas na produção agropecuária é significativa: 31,1% dos estabelecimentos agropecuários do Sul eram associados a cooperativas (Censo 2017), contra apenas 4,4% no Norte e 3,6% no Nordeste.
  • O crédito rural é um mecanismo central na expansão cooperativista. As cooperativas de crédito rural concentram-se no Sul e Sudeste, reproduzindo as desigualdades regionais.
  • A dimensão social do cooperativismo é destacada: as cooperativas contribuem para a inserção social de membros familiares, capacitação de jovens e mulheres. Porém, à medida que crescem, há uma tendência à profissionalização da gestão e à transferência de operações para corpos técnicos, distanciando-se dos princípios solidários originais.
  • A sucessão geracional é um problema crítico: a saída de jovens do campo compromete a renovação do quadro de cooperados. A participação feminina permanece baixa.

Metodologia

Análise quantitativa com base nos Censos Agropecuários de 2006 e 2017, dados da OCB e do Banco Central, complementada por revisão bibliográfica.

Sobre capital social, comunidade e organizações

As cooperativas são a instituição clássica de capital social agrário — baseadas em confiança, reciprocidade e ação coletiva. Porém, o texto mostra que: (a) a distribuição de cooperativas reflete e reproduz desigualdades regionais preexistentes; (b) o crescimento e a profissionalização podem erodir os princípios solidários; (c) a fragilidade do cooperativismo no Norte e Nordeste indica uma carência de capital social organizacional nessas regiões.

Relevância para o livro

Fundamental para o capítulo sobre o mundo rural. O cooperativismo deveria ser um veículo de reconhecimento e participação democrática no campo. Mas sua distribuição desigual revela que o capital social agrário brasileiro é um fenômeno regionalmente concentrado. Conecta-se à tese do livro: o Brasil tem formas de organização social muito desiguais territorialmente, e isso afeta quem tem voz na democracia.


5. MUELLER, Airton Adelar. Para além de Putnam: cultura, capital social e liberdades, no Sul do Brasil. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 35, n. 103, p. 1-20, 2020.

Argumento central

A tese putnamiana de que o capital social (radicado na cultura cívica local) explica o desenvolvimento de municípios não se sustenta de forma abrangente quando se adota uma concepção multidimensional de desenvolvimento (Abordagem das Capacidades de Amartya Sen). No Rio Grande do Sul, o capital social local não explica as dimensões econômicas do desenvolvimento (emprego/renda), embora tenha efeitos positivos sobre saúde e educação. Há um “desacoplamento” entre atividades econômicas globalizadas e capital social local.

Principais achados e evidências

  • Estudo dos 496 municípios do RS.
  • Resultado central: capital social local não está correlacionado com a dimensão emprego/renda do IFDM 2010. Quando se incluem variáveis concorrentes (Gini, analfabetismo, acesso digital, tamanho de propriedades), o peso do capital social reduz-se drasticamente ou desaparece.
  • O sinal negativo da Consulta Popular com emprego/renda sugere que a maior participação popular se deu nos municípios com piores resultados econômicos — o que indica que o capital social pode ser resultado da pobreza e da busca de superação, não de herança cultural.
  • A variável “mulheres” (percentual de mulheres em idade economicamente ativa) tem efeito positivo significativo em todas as dimensões, corroborando Sen sobre a agência feminina no desenvolvimento.
  • Grandes propriedades fundiárias associam-se negativamente a saúde e educação.

Metodologia

Modelos de regressão (7 modelos para cada uma das 3 dimensões do IFDM), com variáveis de capital social, facilitadores econômicos, oportunidades sociais, heterogeneidades pessoais e diversidades locais. Base empírica: 496 municípios do RS.

Sobre capital social, comunidade e organizações

O texto mais sofisticado do corpus sobre capital social. Mueller demonstra que a existência de capital social em um território pode não ter relação direta com o desenvolvimento econômico local, porque as atividades econômicas estão inseridas em redes globais que escapam ao controle dos atores locais. Existe uma “agency of others”: atores externos — grandes empresas, mercados internacionais — determinam empregos e renda independentemente da cultura cívica local. Porém, capital social tem efeitos reais sobre dimensões que estão mais sob controle local: educação fundamental e saúde básica.

A conclusão mais importante: é preciso separar a existência de capital social de seus efeitos, e considerar poder e controle (agência) como variáveis mediadoras.

Relevância para o livro

Texto central para a sofisticação teórica. Permite evitar o erro de atribuir ao capital social (ou à sua ausência) a explicação completa das desigualdades brasileiras. O reconhecimento (ser ouvido, participar) pode existir localmente sem que isso se traduza em melhoria econômica, porque as forças que determinam emprego e renda estão fora do alcance comunitário. Fundamental para não romantizar nem demonizar os cinco grupos sociais.


6. FERREIRA, Ericka Sales; PESSOA, Vera Lúcia Salazar. Capital social e desenvolvimento territorial: uma abordagem teórico-conceitual. Campo-Território, v. 7, n. 14, p. 1-33, ago. 2012.

Argumento central

Sistematização teórica de Coleman, putnam, Bourdieu e fukuyama, articulando capital social com desenvolvimento endógeno e territorial, e alertando para os limites e riscos do conceito.

Principais achados e evidências

  • Sistematização das abordagens: Coleman (funcional, intangível, relacional), putnam (comunidade cívica, confiança, participação horizontal), Bourdieu (capital como recurso de poder, redes de reconhecimento), fukuyama (cooperação, raio de confiança, externalidades positivas e negativas).
  • fukuyama introduz a distinção entre capital social com consequências positivas (cujo raio de confiança transcende o grupo) e negativas (coesão interna sacrifica cooperação externa — máfia, KKK).
  • A tipologia de capital social: bonding (ligação entre iguais), bridging (ponte entre grupos diferentes), linking (conexão com autoridades e instituições). A situação ideal é ter os três tipos.
  • Críticas ao conceito: condicionamento histórico excessivo, riscos de exclusão, capital social pode gerar grupos corruptos e autoritários (Della Porta).
  • Referência a Oliveira Vianna (1974): a questão histórica de se as comunidades brasileiras desprovidas de “traços culturais” cívicos estariam fadadas ao fracasso.

Metodologia

Revisão bibliográfica teórico-conceitual, sem componente empírico.

Relevância para o livro

A distinção bonding/bridging/linking é especialmente útil para pensar os cinco grupos sociais: cada grupo pode ter forte capital social interno (bonding) mas fraco capital social de ponte (bridging) com os demais. A questão do thymos cruza-se aqui: o reconhecimento pode ser forte dentro do grupo (os cooperados se reconhecem entre si) mas fraco entre grupos (o agronegócio não reconhece os trabalhadores precários, e vice-versa). A referência a Oliveira Vianna abre ponte direta com o capítulo sobre a ideia de Brasil.


7. JACOB, César Romero et al. A diversificação religiosa. Estudos Avançados, v. 18, n. 52, p. 9-11, 2004.

Argumento central

O Brasil, historicamente identificado como “o maior país católico do mundo”, passou por um intenso processo de diversificação religiosa a partir de 1980, com queda do catolicismo, crescimento acelerado dos evangélicos (sobretudo pentecostais) e aumento dos “sem religião”. Esse processo tem uma geografia precisa: avança pelas fronteiras pioneiras, periferias metropolitanas e litoral nordestino.

Principais achados e evidências

  • Dados censitários (1970-2000): católicos caem de 91,8% (1970) para 73,9% (2000). Evangélicos sobem de 5,2% para 15,6%. Sem religião de 0,8% para 7,4%.
  • O motor principal da diversificação são os pentecostais, que passam de 3,2% (1980) para 10,6% (2000).
  • A diversificação está associada a três fatores: (1) preexistência de espaços não-católicos ligados à colonização (alemã no Sul, frentes pioneiras na Amazônia); (2) avanço das frentes pioneiras, onde pastores pentecostais encontram população migrante desenraizada; (3) urbanização acelerada, favorecendo novas religiões nas periferias.
  • Bastióes católicos resistentes: sertão nordestino, maior parte de Minas Gerais, interior do Paraná, SC e RS.

Metodologia

Análise demográfica com dados censitários (IBGE 1970-2000), utilizando índice de entropia para medir diversificação religiosa por microrregião. Cartografia temática.

Relevância para o livro

Texto fundamental para cruzar a geografia do agronegócio com a geografia da transformação religiosa. As mesmas regiões de fronteira agrícola que Elias e Frederico descrevem como dominadas pelo capital agroindustrial são as regiões de maior avanço pentecostal. Isso sugere que, onde o capital social comunitário é fraco ou inexistente, as igrejas evangélicas emergem como substitutos funcionais — oferecendo o reconhecimento (thymos) que nem o Estado nem o mercado oferecem.


8. SERRA, Fernando A. Ribeiro; FERREIRA, Manuel Portugal; TEIXEIRA, Wagner Alessandro. A responsabilidade social no Brasil: o caso da cooperativa Cocamar. GlobAdvantage Working Paper, n. 16, maio 2008.

Argumento central

A responsabilidade social corporativa (RSC) está inserida na estratégia da Cocamar — Cooperativa Agroindustrial de Maringá (PR) — não apenas como ação filantrópica, mas como elemento central de posicionamento estratégico. O estudo de caso mostra como uma cooperativa agroindustrial de grande porte integra ações sociais e ambientais à sua missão institucional.

Principais achados e evidências

  • Cocamar fundada em 1963 por produtores de café em Maringá. Faturamento de R$ 1 bilhão em 2007, ~25 mil cooperados, ~2.175 colaboradores.
  • Entre 1993 e 1995, crise financeira severa levou à profissionalização da gestão e mudança de valores: de “pioneirismo” e “paternalismo” para “planejamento”, “transparência” e “compromisso com resultados”.
  • Projetos sociais internos e externos (Escola no Campo, Cooperjovem, núcleos femininos, diversificação agropecuária na pequena propriedade, Cocamar Ecológica).
  • Investimento em RSC: até 1% do faturamento em ações sociais, 0,025% em ambientais.
  • A crise de 1995 foi ponto de inflexão: a perda de confiança dos cooperados levou a cooperativa a buscar legitimidade via responsabilidade social.

Metodologia

Estudo de caso qualitativo com entrevistas semiestruturadas a cinco executivos da Cocamar.

Relevância para o livro

O caso Cocamar ilustra concretamente como uma cooperativa pode (ou não) produzir capital social e reconhecimento. A cooperativa é uma instituição intermediária entre o indivíduo atomizado e o mercado global — um locus potencial de thymos. Mas a tensão entre profissionalização e solidariedade é real. A crise de 1995 mostra que o capital social (confiança dos cooperados) não é dado: precisa ser construído e pode ser destruído.


9. FIORAVANTI, Lívia Maschio. Concentração fundiária e dinâmica imobiliária em uma cidade que já surgiu como negócio: um estudo a partir de Primavera do Leste, Mato Grosso. Geosul, Florianópolis, v. 34, n. 71, p. 448-472, abr. 2019.

Argumento central

Primavera do Leste (MT) é uma cidade que “já surgiu como negócio” — um empreendimento imobiliário e fundiário concebido desde sua origem nos anos 1970 como vetor de acumulação capitalista. A concentração fundiária que marcou a colonização do sudeste mato-grossense se reproduz na dinâmica imobiliária urbana, controlada por poucas famílias “pioneiras” que dominam o espaço político e econômico da cidade. O resultado é uma urbanização oligopolista, segregadora e violenta.

Principais achados e evidências

  • Primavera do Leste nasceu do desmembramento de uma única fazenda, dentro do contexto dos incentivos fiscais da SUDAM para a “ocupação” da Amazônia Legal.
  • A comercialização de terras mostrou-se mais lucrativa que a agropecuária.
  • Em 1992, 75,2% das terras estavam em grandes propriedades. Em 2007, seis produtores detinham metade dos 320 mil hectares de lavouras.
  • As mesmas famílias “pioneiras” controlam os loteamentos, determinam preços de lotes e imóveis, e exercem poder político sobre a gestão municipal.
  • Práticas higienistas e excludentes: “triagem” da população pobre pelo prefeito (anos 1990), moradores de rua chamados de “pés-inchados” e expulsos da cidade por caminhões de madrugada, campanha na mídia local contra migrantes.
  • Nordestinos, negros e indígenas são tratados como ilegítimos — não dotados de pertencimento à cidade. O discurso do “pioneirismo” e do “empreendedorismo” condena os pobres como “preguiçosos e violentos”.

Metodologia

Pesquisa qualitativa com trabalho de campo em Primavera do Leste, entrevistas, levantamento bibliográfico e análise cartográfica.

Sobre capital social, comunidade e organizações

O texto mais perturbador do corpus. Fioravanti mostra que em Primavera do Leste existe um capital social denso — mas exclusivo: as famílias “pioneiras” formam uma rede coesa de poder econômico e político, com altíssimo capital social interno (bonding). Porém, esse capital social funciona como mecanismo de exclusão: determina quem pode morar na cidade, quem tem acesso à propriedade, quem é reconhecido como cidadão. É um caso exemplar de capital social negativo (no sentido de Fukuyama e Della Porta): a coesão do grupo dominante se constrói contra os de fora.

As organizações locais são capturadas: a Câmara Municipal, a mídia, as igrejas, as escolas reproduzem os interesses das oligarquias. Não há espaço para organizações autônomas da população pobre. O “reconhecimento” é monopolizado pelos “pioneiros” e negado sistematicamente aos demais.

Relevância para o livro

Texto absolutamente central. Primavera do Leste funciona como um microcosmo da questão do livro: a democracia brasileira como arena de lutas por reconhecimento (thymos), onde o acesso à terra, à cidade e à voz pública é distribuído de forma radicalmente desigual. A negação de reconhecimento aos migrantes, nordestinos e negros — classificados como “pés-inchados” — é uma demonstração brutal de como o thymos funciona: a dignidade é concedida ou negada com base na propriedade, na cor e na origem. A “cidade vitrine” do agronegócio é, por trás da fachada de progresso, uma máquina de produção de desigualdade e humilhação.


Síntese transversal: o que os 9 textos dizem em conjunto

Sobre as cidades do agronegócio: Os textos de Elias, Elias & Pequeno, Frederico e Fioravanti convergem para um diagnóstico claro: as cidades do agronegócio brasileiro são espaços de grande dinamismo econômico e profunda desigualdade social. A riqueza gerada pela agricultura globalizada é capturada por poucos agentes, enquanto a maioria da população urbana vive em condições precárias. O “progresso” é real em termos de PIB, mas não se traduz em desenvolvimento humano para todos.

Sobre capital social: Os textos de Mueller, Ferreira & Pessoa e o IPEA mostram que o capital social não é uma variável mágica: sua existência não garante desenvolvimento econômico (Mueller), sua ausência não condena ao fracasso (Ferreira & Pessoa), e suas formas organizadas (cooperativas) reproduzem desigualdades regionais (IPEA). O caso da Cocamar mostra que capital social pode ser construído e destruído. O caso de Primavera do Leste mostra que capital social pode ser excludente e violento.

Sobre reconhecimento (thymos): A questão de quem é reconhecido como membro legítimo da comunidade perpassa todos os textos. Nos textos sobre cidades do agronegócio, o reconhecimento é dado ao “pioneiro”, ao produtor, ao empreendedor — e negado ao migrante, ao trabalhador precário, ao nordestino, ao negro, ao indígena. A diversificação religiosa (Jacob) mostra que igrejas pentecostais emergem como substitutos de reconhecimento onde o Estado e o capital não o oferecem. O cooperativismo (IPEA, Cocamar) oferece uma via intermediária, mas tendencialmente capturada pela lógica de mercado.

Para o livro: Esses nove textos fornecem material empírico e teórico para argumentar que a democracia brasileira é atravessada por formas desiguais de reconhecimento que se materializam no território — nas cidades do agronegócio, nas fronteiras agrícolas, nas periferias urbanas, nas cooperativas e nas igrejas. A questão “quem é o brasileiro e quem fala por ele?” ganha concretude espacial e institucional.

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