O MBL por dentro: genealogia intelectual, máquina de formação e a infraestrutura da masculinidade
O MBL (Movimento Brasil Livre) é o principal movimento de direita não-partidário surgido no Brasil pós-2013: formalmente fundado em novembro de 2014, conectado à Atlas Network e ao Students for Liberty americano, e organizado desde o início como uma “marca” de rua para ativistas libertários inseridos em redes transnacionais de financiamento. Em novembro de 2025, completou sua transformação em partido formal — o Partido Missão, número 14, com Renan Santos como presidente nacional e pré-candidato presidencial para 2026.
Para este vault, o MBL é caso de estudo da direita populista brasileira pós-Dilma e laboratório para a conexão entre masculinidade performativa, populismo e ativismo de direita. Documenta como a retórica libertária inicial (hayek/Mises/Atlas Network) se fundiu com técnicas de growth hacking e, nos anos 2020, virou discurso de segurança pública à la Bukele — virada que o próprio Renan Santos descreveu em 2025 como afastamento definitivo do liberalismo original.
Esta pesquisa documental (abril 2026) cobre seis eixos: (1) a genealogia EPL/SFL/Atlas e a origem como “marca” deliberada; (2) o papel nas manifestações pró-impeachment como nó de agenda, não mobilizador de multidão; (3) operações de mídia fabricada documentadas pela Veja — outdoor de Curitiba, invasões de escolas, caso Marielle; (4) a transformação em operação de conteúdo contínuo (Academia MBL, Valete, Partido Missão); (5) a infraestrutura financeira e seu modelo comercial; (6) a masculinidade como infraestrutura ideológica — a conexão entre o “founder-hero”, a manosphere e a estética greco-romana da Academia.
Pesquisa aprofundada — Abril 2026
EIXO 1 — A genealogia: das redes libertárias transnacionais à “marca” nas ruas
1.1. A criação da “marca” e a infraestrutura EPL/SFL/Atlas
A origem documentada mais sólida do MBL não é que o movimento “nasceu das ruas” de 2013, mas que emergiu como uma marca criada deliberadamente por indivíduos já conectados a uma infraestrutura libertária jovem preexistente. A história mais precisa: o MBL surgiu como nome para que pessoas ligadas a organizações que recebiam financiamento libertário estrangeiro pudessem participar da política de rua sem implicar formalmente suas organizações doadoras em atividade política direta.
O relato primário mais detalhado é da Agência Pública (junho de 2015, “A nova roupa da direita”), que descreve o Estudantes pela Liberdade (EPL) como nó brasileiro da Students For Liberty (SFL) e situa o EPL dentro de um ecossistema mais amplo que inclui a Atlas Network. O mesmo texto traz explicação explícita de Juliano Torres, diretor executivo do EPL: “Aí a gente resolveu criar uma marca, não era uma organização, era só uma marca para a gente se vender nas manifestações como Movimento Brasil Livre.”
O site da Atlas Network publicou em abril de 2015 um artigo intitulado “Students For Liberty jogam um importante papel no Movimento Brasil Livre”, identificando Kataguiri como membro da EPL e afirmando que “muitos membros do MBL passaram pelo principal programa de treinamento da Atlas Network, a Atlas Leadership Academy.” Fábio Ostermann, coordenador do MBL no RS, constava como “Koch Summer Fellow na Atlas Economic Research Foundation.”
Duas fontes acadêmicas reforçam e ajudam a des-sensacionalizar esse mecanismo. Um artigo da Revista Angelus Novus enquadra o MBL como formalmente fundado em 2014, “financiado por think tanks pró-mercado,” e funcionando como nome de fachada para a seção nacional do Students for Liberty — ao mesmo tempo em que reconhece que futuros fundadores alegam participação pessoal em 2013 e dele aprenderam. Um segundo texto acadêmico, em Crítica Educativa, apresenta similarmente a origem “marca primeiro” do MBL e o conecta explicitamente ao EPL e às restrições do financiamento libertário estrangeiro.
Isso importa para a pergunta (“nascido do 2013 ou apropria o 2013?”) porque o registro sustenta uma resposta híbrida com ponderação clara: o MBL “apropria” 2013 como repertório e conjunto de símbolos mais do que “é” 2013 — ainda que seja formado por pessoas que participaram de partes do 2013 e extraíram dele lições organizativas.
A documentação mais forte nas fontes diz respeito às ligações EPL/SFL–Atlas (em vez de laços formais diretos entre o MBL e cada instituto brasileiro individualmente). O que está bem documentado é o pipeline compartilhado de pessoal, os marcadores do cânone libertário (“Menos marx, mais Mises”) e o milieu transnacional compartilhado de treinamento e financiamento em torno do EPL/SFL/Atlas.
1.2. Os fundadores: perfis e origem de classe
Há uma distinção entre a origem informal e a fundação formal. Segundo a Veja (2018), o grupo surgiu em maio de 2014 quando Renan Santos — então com 30 anos, filiado ao PSDB — e outro jovem tentaram lançar um movimento em Vinhedo (interior de SP). O evento na praça central foi um “fracasso retumbante, que não reuniu mais que uns poucos gatos pingados.” Só então Renan criou uma página no Facebook, recrutou amigos publicitários e youtubers (entre eles Kataguiri) e passou a produzir memes em escala industrial com alvo certeiro: críticas ao PT. A fundação formal com nome, estatuto e cinco fundadores (Alexandre Santos, Renan Santos, Kim Kataguiri, Frederico Rahu e Gabriel Calamari) é datada de 1º de novembro de 2014. Os perfis dos mais documentados:
- Kim Kataguiri: nascido em Salto (SP), “ensino superior incompleto,” eleito deputado federal por São Paulo em 2018 (pelo DEM) e reeleito em 2022; em março de 2026 migrou para o recém-registrado partido Missão.
- Renan Santos: principal estrategista do MBL desde a origem e sua figura mais controversa — em 2018, a Veja registrava que ele respondia a “algumas dezenas de processos judiciais, a maioria deles ações trabalhistas de empresas de sua família.” Sua resposta: “Sou apenas mais um empresário sufocado pela burocracia.” Oriundo da Mooca (zona leste de SP), família de classe média (pai comerciante e advogado), aluno da USP sem conclusão.
- Fernando Holiday: nome real Fernando Silva Bispo. Biografia parlamentar descreve criação humilde em Carapicuíba, escola pública, e totais de votos em 2016 e 2020; outras fontes descrevem seu reposicionamento político posterior e saída definitiva do MBL.
- Arthur do Val: amplamente conhecido como “Mamãe Falei,” candidato à prefeitura de SP em 2020; perdeu o mandato de deputado estadual após o escândalo de áudios da Ucrânia em 2022.
A pergunta sobre “origem de classe” é respondida com parcimônia por uma reportagem da Exame de 2016, que apresenta o grupo como uma equipe jovem e voltada para mídia, explicitamente analogizada a um time de startup, operando em pequeno escritório, com estética de cultura jovem (“rock,” ambiente de coworking, orientação para memes e humor). A mesma reportagem menciona o histórico de campanha estadual de Renan Santos e descreve a cultura interna do movimento como deliberadamente performativa e conflituosa (“politicamente incorreto,” adereços e roteiros deliberadamente polarizadores).
1.3. Referências teóricas declaradas
O manifesto original do MBL lista: o liberalismo conservador de Meira Penna, a economia de hayek e Mises, Bastiat, Eric Voegelin, Edmund Burke, Russell Kirk e Ortega y Gasset. É um ecletismo que combina liberalismo econômico austríaco com conservadorismo burkeano — a mesma combinação que a Atlas Network promove globalmente. No 1º Congresso Nacional (novembro de 2015), aprovaram entre outras propostas o “fim da função social da propriedade” — liberalismo austríaco de manual.
Nota metodológica: O “manifesto original” não está facilmente acessível hoje em fonte oficial estável. As reconstruções de seu conteúdo dependem de fontes secundárias (academia e jornalismo). Para jornalismo de precisão, o ideal é recuperar versões arquivadas (Web Archive) ou documentos internos autenticados.
1.4. Ryan Holiday como referência fundadora
A reportagem “O Mundo Mágico do MBL” (Veja, Eduardo Gonçalves, março de 2018) é a fonte primária mais detalhada sobre a influência de Ryan Holiday no MBL. O texto identifica Holiday como “a alma do grupo” e seu livro Trust Me, I’m Lying como “a cartilha do movimento.” A matéria foi amplamente repercutida — o próprio Meio (edição de 26/03/2018) sintetizou: “Segundo a revista, o Movimento inspira-se no americano Ryan Holiday, autor de um livro sobre como plantava notícias falsas na imprensa para fazer dinheiro.”
Não foram localizadas entrevistas posteriores em que Renan Santos ou Kim Kataguiri citem Holiday nominalmente. Isso é coerente com o fato de que, após a reportagem da Veja, a associação passou a ser inconveniente — a Veja a usou como acusação, não como elogio. O provável é que a referência tenha sido internalizada e deixado de ser verbalizada publicamente. Nenhum material da Academia MBL ou da ESL disponível online lista Trust Me, I’m Lying como leitura obrigatória, embora a estrutura das técnicas ensinadas (especialmente em “Fundamentos de Memística e Redes Sociais”) seja claramente compatível com o playbook de Holiday.
Fernando Holiday e o sobrenome: A Veja (2018) afirma diretamente que o vereador Fernando Holiday (Fernando Silva Bispo) “tirou o sobrenome, digamos assim, artístico” de Ryan Holiday — ao mesmo tempo que “diz oficialmente que é uma homenagem à cantora Billie Holiday.” Essa formulação da Veja vai além de hipótese: trata a conexão com Ryan Holiday como fato dado, com a versão Billie Holiday como explicação oficial do próprio Fernando. Outras fontes (entrevista à Câmara LGBT) registram a explicação oficial de Fernando (Billie Holiday, “Strange Fruit”). Status atual da evidência: a Veja afirma a conexão com Ryan Holiday como fato; Fernando a nega oficialmente; não existe documento independente que resolva a divergência. A Veja é a única fonte que nomeia Ryan Holiday como origem do sobrenome artístico.
As duas faces de Holiday = as duas operações do MBL: Não existe nenhuma fonte — acadêmica, jornalística ou de ex-membros — que tenha feito explicitamente a conexão entre as duas vertentes da obra de Ryan Holiday (manipulação de mídia + estoicismo pop) e as duas operações do MBL (máquina de memes/fake news + Academia com estética clássica Esparta/Atenas/Alexandria). A conexão é estruturalmente poderosa, mas permanece como hipótese analítica original a ser formulada.
Ryan Holiday e Tucker Max — o método na origem: O maior feito de Holiday, descrito na Veja, foi popularizar o filme I Hope They Serve Beer in Hell (Espero que Sirvam Cerveja no Inferno) do amigo Tucker Max — um longa com ideias misóginas condenado ao esquecimento. Holiday espalhou cartazes por Los Angeles, depois os vandalizou com fita adesiva, fotografou o falso “vandalismo” e enviou as imagens a jornalistas. A notícia da “depredação” tomou os principais jornais americanos. Feministas saíram às ruas de verdade para protestar. O filme de orçamento baixíssimo se tornou tema nacional. A sequência — criar o artefato, fabricar o ataque, fotografar, distribuir para a imprensa, colher a reação orgânica — é o template que a Veja atribui ao outdoor de Curitiba.
1.5. Growth hacking e Pedro D’Eyrot
Pedro D’Eyrot (cofundador do MBL e ex-vocalista do Bonde do Rolê) é a ponte explícita entre a indústria cultural e a política. Publicitário de formação, ele trouxe para o MBL a lógica de viralização de conteúdo que aprendeu na indústria musical. Disse à BBC/Terra: “O que dava certo para divulgar uma banda dá certo para divulgar uma ideologia política.” Em 2016, à Folha, declarou que seu objetivo era “repaginar a estética da direita brasileira, lateralizando a imagem conservadora dos direitistas” — o que chamou de “direita transante.”
Não há evidência direta de influência formal de Érico Rocha, Hotmart ou growth hacking explícito, mas a lógica de funil (conteúdo gratuito → engajamento → conversão → comunidade paga) é idêntica ao modelo de infoproduto brasileiro. A Academia MBL é, estruturalmente, um infoproduto político.
Uma tensão interna nunca resolvida: D’Eyrot — que lançou Pabllo Vittar — representa uma sensibilidade liberal-cultural que conviveu mal com o conservadorismo de costumes que o MBL abraçou a partir de 2017. A tensão foi varrida para debaixo do tapete, não resolvida.
Saul Alinsky: Não existe referência direta do MBL a Alinsky, mas a técnica de polarização, provocação e uso do inimigo como instrumento de mobilização é alinskyiana na prática, independentemente de ser ou não influência consciente.
EIXO 2 — Da rua ao impeachment: mobilização e organização
2.1. O papel do MBL nas manifestações pró-impeachment
Uma correção importante — frequentemente perdida na mitologia retrospectiva — é que as multidões de rua de 2015-2016 não eram “multidões do MBL” em nenhum sentido organizacional simples; eram eventos de massa com participação ampla e filiação formal relativamente baixa a qualquer movimento.
Uma apresentação do Datafolha sobre os protestos na Avenida Paulista mostra que 91–93% dos respondentes declararam não participar de nenhum grupo organizador, enquanto apenas ~1% declarou participação no MBL como grupo organizador (com o Vem Pra Rua em torno de 3–4% na mesma medição). Isso é consistente com um modelo em que o MBL funcionou menos como um “movimento de filiados” e mais como um nó de definição de agenda e mídia dentro de uma mobilização antigovernamental muito mais ampla.
Demograficamente, os eventos da Avenida Paulista — centrais para a ecologia de movimentos em que o MBL atuou — eram enviesados para participantes masculinos, mais velhos, mais brancos e mais escolarizados do que a população de base de São Paulo. Em março de 2015, o Datafolha registrou 63% de homens, idade média de ~40 anos e 76% com ensino superior; ondas posteriores de 2015 permaneceram majoritariamente masculinas e também com alta renda e alta autodeclaração “branca.” Esses não são números do “público do MBL,” mas são contexto essencial para que tipo de base social o repertório pró-impeachment normalizou.
2.2. Coordenação e competição com outros movimentos
O ponto mais bem documentado não é “unidade,” mas coordenação competitiva. Uma comparação acadêmica de 2024 entre 2013 e o ciclo de impeachment argumenta que grupos como MBL e Vem Pra Rua foram formados depois (2014), extraíram lições de 2013 e se tornaram os principais hubs de mobilização via redes sociais, ao mesmo tempo em que disputavam com outras organizações. Essa análise também nota uma mudança entre a postura mais hostil “anti-partido” de 2013 e o engajamento mais pragmático com políticos e partidos de oposição no período pró-impeachment.
2.3. Operações de mídia fabricada (o playbook de Holiday na prática)
O caso do outdoor de Curitiba (2016): Documentado em detalhes pela Veja a partir de Felipe Lintz, ex-membro do MBL que participou da operação. Quando as ocupações de escolas no Paraná perderam força, um outdoor apareceu nas ruas de Curitiba: “Obrigado MBL, por colocar nossos filhos de volta na escola!” — auto-homenagem encomendada pelo próprio movimento. Em seguida, uma faixa “MBL fascista” foi pregada sobre o banner. Segundo Lintz (à Veja), a ordem de vandalizar o outdoor veio do próprio Renan Santos, para simular um ataque da esquerda. Renan Santos negou ter pedido a Lintz que forjasse os ataques. Lintz estava fora do MBL no momento da reportagem.
A técnica de “invadir as invasões” (2016): A Veja documenta essa estratégia como tentativa deliberada de recuperação de relevância pós-impeachment. O DCM e a Esquerda Online cobriram extensamente a ação do MBL nas ocupações de escolas no Paraná em outubro de 2016: militantes do MBL entravam nas escolas ocupadas para filmar confrontos e transmitir ao vivo. Segundo a Esquerda Online, “não há dúvidas de que esta ação foi planejada e tinha como único objetivo a provocação, no intuito de criar um fato político contra o legítimo movimento de ocupação de escolas.” Relatos documentam filmagens de menores, provocações verbais deliberadas (“Vocês são a favor da legalização da maconha?”) e denúncias de assédio. O MBL também confeccionou faixas falsas com o logotipo da APP Sindicato e forjou imagens associando ocupações a bandeiras comunistas — técnicas diretamente alinhadas com o playbook de Holiday (criar a narrativa, fabricar o artefato visual, filmar a reação).
Caso Marielle Franco (2018): Dias após o assassinato da vereadora, o MBL compartilhou no Facebook um texto que tratava como verdadeiras as falsas informações postadas pela desembargadora Marilia Castro Neves — de que Marielle teria sido eleita pelo Comando Vermelho e financiado a campanha com dinheiro do tráfico. A postagem acumulou mais de 30.000 compartilhamentos só no Facebook. Quando os boatos foram desmentidos, o MBL deletou a postagem sem jamais se retratar publicamente.
2.4. A fábrica de memes
A investigação mais detalhada é da Vice (Julia Reis e Marcos Fantini, dezembro de 2018): “Como o MBL monopolizou as fábricas meméticas de direita no Brasil.” A reportagem documenta que o MBL comprou páginas de memes no Facebook, incluindo a “Corrupção Brasileira Memes” (CBM), com mais de 1,2 milhão de seguidores. O preço informado por fontes: R 500 pela cota de administrador. Segundo a Vice, o MBL consolidou a estética da nova direita brasileira em páginas de Facebook “em torno de 2013”. A conclusão da matéria: a produção de memes pelo MBL não era espontânea, mas uma operação industrial de compra, cooptação e padronização de páginas meméticas. Pedro D’Eyrot é a figura-chave nesta operação.
EIXO 3 — A transformação em operação de conteúdo contínuo
3.1. O modelo startup (2016)
Já em 2016, a mídia de negócios descrevia o MBL em termos de “startup”: equipe centralizada pequena produzindo vídeos de resposta rápida (muitas vezes imediatamente após anúncios do governo), com roteiros prontos para viralização por conflito. A reportagem da Exame daquele ano inclui declaração direta de que o dinheiro vinha do engajamento na internet, enfatizando pequenas doações e vendas de produtos como fontes de receita, e descrevendo uma lógica interna de “crescer ou morrer” (“Se a gente não continuar crescendo, a gente vai morrer”). Isso é uma âncora útil porque é anterior à profissionalização posterior: mostra que a lógica “movimento → operação de mídia” não foi uma virada tardia, mas estava presente na fase pró-impeachment como lógica operacional central.
A mesma reportagem detalha o orçamento das mobilizações: por exemplo, R 50–R$ 100) e vendas de produtos (adesivos, camisetas), enquanto a organização se recusava a nomear publicamente os doadores.
3.2. O funil digital estruturado
O que muda depois é que a camada de “conteúdo” se torna um funil estruturado com segmentação explícita por plataforma e nível de comprometimento. Um paper acadêmico de 2025 apresentado na Compós (focado na transformação organizacional-comunicacional do MBL, 2014–2024) descreve um “funil MBL” explícito com múltiplas camadas:
- Conteúdo de amplo alcance no Instagram/TikTok;
- Conteúdo longo, frequentemente diário, de mais de duas horas, no YouTube (o paper cita lives diárias de mais de duas horas conduzidas por coordenadores nacionais);
- Uma camada paga com plataforma própria de vídeos e “dossiês,” mais acesso via Telegram a um fórum e “grupos de notícias” curados escritos por jornalistas contratados pela organização.
O objetivo declarado do funil: capturar simpatizantes de direita que não distinguem claramente o MBL de atores bolsonaristas, usar o Instagram para atraí-los, o YouTube para posicionar o grupo como “mais legitimamente de direita,” e depois consolidar uma “base mais fiel” por meio de assinaturas pagas.
O mesmo paper da Compós documenta a criação de um “ecossistema” expandido que inclui: MBL como marca de ativismo político; “Valete” como universo de conteúdo/comunidade/“produção intelectual”; e Missão como institucionalização partidária formal — enquanto nota que os líderes apresentam publicamente esses como escopos separados, mas os autores os tratam como um ecossistema integrado servindo a objetivos comuns de recrutamento e lançamento de candidatos.
3.3. Métricas de escala e campanhas apócrifas
Dois indicadores quantificáveis do paper da Compós são especialmente valiosos por irem além das métricas de vaidade de seguidores: até o final de 2024, a Revista Valete tinha uma tiragem mensal de 5.000 e o movimento afirmava 54.000+ cópias vendidas ao longo de seu segundo ano; o repositório de conteúdo pago para assinantes do clube foi descrito como 200+ produções internas, incluindo 92 dossiês, 20 mini-documentários, 2 documentários e 17 entrevistas exclusivas.
Sobre seguidores: em 2017, o El País descreveu o MBL como tendo 2,5 milhões de “fãs” no Facebook na época da publicação. A página oficial do Facebook do movimento mostra atualmente ~2,89 milhões de curtidas (valor volátil, sujeito a alteração).
Um detalhe relevante para a dinâmica de “astroturfing”/deniabilidade aparece no mesmo paper da Compós: o movimento trabalha com “campanhas apócrifas, sem identificação direta do MBL”, e dá como exemplo um site lançado sem marca do MBL para orientar o debate sobre gastos federais (ou seja, moldar a agenda sem atribuição explícita). Isso não é prova de ilegalidade; é evidência de uma estratégia explícita de gestão de atribuição na comunicação de campanha.
EIXO 4 — O mecanismo de formação
4.1. A Academia MBL — estrutura e funcionamento
Lançamento e contexto: A Academia MBL foi lançada em março de 2021, em meio a uma reestruturação interna que incluiu a saída de Fernando Holiday e a expulsão de cerca de 150 membros. O lançamento coincidiu com a adoção do “Fora Bolsonaro” pelo MBL. O marco é relevante: é aqui que o MBL deixa de ser apenas provocação digital e começa a construir formação e recrutamento estruturados. A coincidência com a hemorragia interna sugere que a Academia foi tanto instrumento de renovação de quadros quanto resposta à crise.
As três casas (dados do Manual do Aluno 2023, Scribd):
A divisão é feita pela “Matriz de Personalidade MBL,” descrita no Manual como “uma ferramenta criada a partir de testes psicológicos já existentes (ex. Big Five, OCEAN) com o intuito de classificar os alunos em perfis claramente definidos por pontos fortes e fracos.”
- Atenas — os porta-vozes. Classificação: pontuação mais alta na soma de comunicação + risco. Perfil: quem fala, provoca, enfrenta.
- Esparta — os líderes. Classificação: pontuação mais alta na soma de liderança + lealdade. Perfil: quem organiza, comanda, sustenta.
- Alexandria — os intelectuais. Classificação: pontuação mais alta na soma de criatividade + sabedoria. Perfil: quem produz conteúdo, analisa, teoriza.
Exemplos públicos: Kim Kataguiri foi classificado como Alexandria; Arthur do Val como Atenas; Rubinho Nunes como Esparta. Danilo Gentili fez o teste e saiu como “Tribuno” (variante de Atenas).
O Manual especifica que as casas “não devem ser encaradas como uma classificação rígida” e que há 12 arquétipos específicos. As avaliações são interdisciplinares e em grupo, após formação de “equipes totêmicas.”
Grade curricular documentada:
- “Fundamentos de Memística e Redes Sociais” — ministrado por Pedro D’Eyrot. Inclui módulo sobre “processo de criação de fake news” (apresentado como “prebunking”). Baseado em parte no vídeo de Yuri Bezmenov (ex-KGB) publicado pelo NYT sobre desinformação soviética.
- “Teoria Geral do Estado” — ministrado por advogados ligados ao movimento.
- Marketing político.
- História do MBL.
- Aulas com parlamentares eleitos (Arthur do Val, Kim Kataguiri, outros).
- Aulas sobre “PT e partidos de esquerda.”
Formato e custo: O curso é descrito como online, com duração de quase nove meses (versão 2021). O DCM reportou que as inscrições eram pagas e que o MBL fazia “campanha agressiva para conseguir alunos pagantes.” Renan Santos afirmou 25 mil pré-inscrições antes da abertura das matrículas. A loja online do MBL vende meias com logo das casas (Alexandria, Atenas) a R$ 5,00.
Aulas magnas: FHC, Henrique Meirelles, João Amoedo, Luiz Felipe Pondé. Essas figuras conferem legitimidade institucional ao projeto.
Versão atual (2025-2026): O site academia.mbl.org.br apresenta a Academia como “ponte que conecta sua paixão pelo Brasil com uma formação política de qualidade.” A linguagem mudou significativamente: promete que “caso se destaque, nós queremos contratá-lo oficialmente” e oferece “todo o suporte necessário para ser competitivo já em 2026.” O texto exala linguagem de jornada do herói: “Em um país onde Podpah e Oruam são referências, precisamos de mais Ayrtons e Tiradentes […] é como se cada um de nós estivesse correndo em direção a um penhasco […] a única coisa que pode evitar este destino triste é se pessoas como você vestirem o seu uniforme de herói e irem para a rua salvar a sua nação.”
4.2. A ESL — Escola Superior de Líderes
A Política Livre reportou em fevereiro de 2024 que o MBL lançou a Escola Superior de Líderes com “meta de formar ao menos 50 lideranças políticas de direita em todo o país até o final de 2024.” O conteúdo programático incluía “cursos de capacitação teórica e prática, mentoria, consultoria jurídica, acompanhamento psicológico e análise de redes sociais.” O slogan é “Forjando Líderes para a Refundação do Brasil.”
A ESL é posicionada claramente como nível acima da Academia MBL — o pipeline de formação de candidatos efetivos. O programa divulga valor anual de R$ 127.080 (turma de 2024), com opção de parcelamento, além de “assessoria de comunicação e redes sociais” e suporte jurídico e psicológico como benefícios incluídos. Não há dados sobre pré-requisitos formais (se exige passagem prévia pela Academia), mas a lógica institucional sugere que sim.
4.3. O pipeline completo
Com base nos dados coletados, o pipeline pode ser reconstituído:
- Exposição — Conteúdo gratuito no YouTube, Instagram, TikTok (MBL, canais de porta-vozes, Valete). Função: captura de atenção.
- Engajamento — Newsletter (“Valete”), grupos de Telegram, comunidade online. Função: identificação e aquecimento.
- Seleção — Teste de personalidade (Matriz de Personalidade MBL). Função: classificação em casa (Esparta/Atenas/Alexandria).
- Formação — Academia MBL (paga, ~9 meses). Função: doutrinação, treinamento técnico, criação de laços.
- Promoção — ESL (selecionados da Academia). Função: formação avançada, mentoria, preparação para candidatura.
- Candidatura — Partido Missão (registrado em novembro de 2025, número 14). Função: acesso às urnas, fundo eleitoral, tempo de TV.
- Contratação — Para os que se destacam antes de virar candidatos: “nós queremos contratá-lo oficialmente” (site da Academia MBL). Função: profissionalização do quadro.
Onde entra o dinheiro: O jovem paga pelo curso (Academia MBL). O MBL recebe doações individuais, apoio de empresários (a reportagem da Piauí em 2017 revelou grupo de WhatsApp com 150+ executivos do mercado financeiro), e agora acessa o Fundo Partidário e o Fundo Eleitoral pelo Missão. A Veja reportou em 2018 que membros recebiam “ajuda de custo” de R$ 1.000/mês — não há confirmação se isso continua, mas a linguagem do site (“nós queremos contratá-lo oficialmente”) sugere remuneração para quadros efetivos.
O ecossistema é descrito pelo próprio Renan Santos como tripé:
- Valete — a iniciativa cultural (pensamento, formação de opinião).
- MBL — o movimento (provocação, inovação de discurso).
- Missão — o partido (institucionalização, eleições).
4.4. A gamificação
Inspirações identificáveis:
- Hogwarts — casas + seleção por teste de personalidade + identidade de grupo. A analogia é explícita: o MBL usa “casas” com nomes clássicos, seleção por teste, e cria identidade tribal. Danilo Gentili publicamente testou “sua casa.”
- Jogos online — ranking, provas, progressão. A estrutura de “equipes totêmicas” com avaliações em grupo replica mecânicas de games cooperativos.
- Fraternidades americanas — processo de seleção, lealdade ao grupo, formatura. A linguagem de “forjar” e a ênfase em lealdade (Casa Esparta) são diretamente análogas.
- Modelo de infoproduto/curso online — funil de conversão, escassez (“vagas estão acabando”), urgência (“faça sua matrícula URGENTEMENTE”), depoimentos de ex-alunos.
Comparações externas relevantes:
O modelo mais próximo não é o Teach for America (que seleciona top-of-class para escolas) nem os partidos europeus (que formam quadros dentro de estruturas burocráticas). O modelo mais análogo é o de organizações religiosas como a JOCUM (YWAM): recrutamento jovem por identidade e propósito, formação intensiva com linguagem de missão/sacrifício, pipeline de liderança interna, financiamento misto (participante paga + doações). A linguagem do MBL (“sacerdócio político,” “uniforme de herói,” “refundação”) ecoa diretamente a retórica missionária.
A Hustler’s University de Andrew Tate é outra comparação relevante: venda de curso a homens jovens frustrados, promessa de transformação pessoal via empreendedorismo/ação, criação de comunidade masculina, gamificação com rankings. A diferença é que Tate vende riqueza individual; o MBL vende propósito político coletivo.
EIXO 5 — Entrada na política institucional e fábrica de candidatos
5.1. A estratégia de candidatos próprios
A estratégia institucional do MBL é melhor compreendida como uma sequência de veículos partidários, cada um escolhido por razões táticas (acesso a candidaturas, adequação de coalizão, evitar disputas internas), culminando na criação de seu próprio partido formal. O paper da Compós afirma claramente que, salvo um caso específico, o movimento “sempre formou seus próprios candidatos,” e descreve pipelines de treinamento pago explicitamente projetados para produzir coordenadores, porta-vozes e candidatos.
5.2. O laboratório de São Paulo
São Paulo é o laboratório principal. Na eleição municipal de 2020, Arthur do Val (então no Patriota) recebeu 522.210 votos (9,78%), contextualizados pela cobertura como conversão de engajamento digital em votos. No mesmo ciclo municipal de 2020, a Gazeta do Povo reportou que o MBL elegeu três vereadores em São Paulo (Fernando Holiday, Rubinho Nunes e Marlon Luz) com seus respectivos totais de votos.
Em 2024, resultado visível do investimento continuado em São Paulo é a eleição de Amanda Vettorazzo com 40.144 votos, confirmada na publicação oficial da Câmara Municipal de São Paulo.
Sobre a escolha interna de candidato, o paper da Compós descreve um mecanismo de “primárias” entre membros para decidir um pré-candidato à prefeitura de São Paulo: 9.951 membros participaram e Kim Kataguiri venceu com 56,13% — depois não foi escolhido como candidato da coalizão pelo então-partido União Brasil.
5.3. Fora de São Paulo
Para 2024, a Revista Oeste reportou que o fundador do movimento comemorou 14 eleitos e explicitamente conectou o desempenho à primeira eleição em que o grupo utilizou o financiamento público de campanha (“Fundão”), ao mesmo tempo que argumentou que a construção organizacional (incluindo a “Academia MBL”) importou mais do que o financiamento sozinho. Essa afirmação deve ser tratada como (a) relato secundário e (b) veículo editorialmente simpático; a validação eleitoral bruta repousa sobre as autoridades eleitorais brasileiras e as câmaras locais.
5.4. O Partido Missão
Em 4 de novembro de 2025, o Tribunal Superior Eleitoral aprovou o registro e o estatuto do Partido Missão como o 30º partido com estatuto registrado, atribuindo-lhe o número eleitoral 14. O TSE lista Renan Santos como presidente nacional do partido. Em março de 2026, múltiplos veículos reportaram que Kim Kataguiri deixou o União Brasil para se tornar o primeiro deputado federal a se filiar ao Missão.
EIXO 6 — Financiamento e modelo comercial
A história do dinheiro do MBL não é uma coisa só; é um stack que evolui de crowdfunding de pequenos doadores/produtos para um híbrido de assinaturas, educação/treinamento pago, eventos, publicação e (em ciclos eleitorais) financiamento público.
A Veja (2018) fornece o retrato financeiro mais detalhado da fase de consolidação. O controle do dinheiro cabia a Alexandre Santos (29 anos, irmão de Renan), mas como a grana entrava e para onde ia eram perguntas sem resposta pública — a Veja solicitou os números por três meses sem obtê-los. O que era verificável:
- “Ajuda de custo” mensal de ~R$ 1.000 a número desconhecido de membros
- Pelo menos 7 funcionários em São Paulo
- Aluguel de ~R$ 10.000/mês
- Equipamentos de filmagem/edição
- R$ 40.000+/mês em impulsionamento de posts nas redes
O dinheiro entrava via CNPJ do Movimento Renovação Liberal (MRL) e da NCE (entidade responsável pela produção dos vídeos do grupo). Uma ex-doadora afirmou à Veja ter feito depósitos diretamente na conta pessoal de Alexandre Santos: “Vi que tinha algo obscuro, que o discurso se descolava de algumas atitudes. Havia uma falta de consistência e muito marketing.” (Pediu anonimato por temer ataques online.)
O relatório da Exame de 2016 havia registrado antes: receita vinha de doações individuais (tipicamente R 100) e vendas de produtos, com o grupo recusando nomear doadores. A mesma reportagem detalha o orçamento de mobilização: R$ 18.000 para os protestos de um único dia em São Paulo.
Em 2017, o El País investigou a estrutura MRL: associação privada registrada em nome de quatro indivíduos (incluindo três irmãos da família Santos), com doações, vendas e “filiações” roteadas para ela, sem direitos de governança para os doadores. O mesmo artigo descreve o fluxo de pagamento via PayPal para o CNPJ do MRL e questiona a qualificação como OSCIP. A reportagem da Piauí de 2017 revelou grupo de WhatsApp com 150+ executivos do mercado financeiro apoiando financeiramente o MBL — público que existe como financiador/apoiador, não como aluno da Academia.
A partir de 2022, o “modelo de negócios” do movimento torna-se inseparável de seu pipeline de recrutamento e candidatos. O paper da Compós descreve o treinamento pago (“Academia MBL”) com módulos práticos (organizar manifestações, fazer campanha online, produzir vídeos provocativos, gerenciar perfis em redes sociais, participar de debates) mais conteúdo ideológico/de formação (liderança, história, filosofia, economia, gestão pública). A IstoÉ Dinheiro descreveu a “Academia de política” como aposta de renovação, mencionando explicitamente aulas sobre como produzir memes e abordando dinâmicas de fake news como parte da construção de influência.
A camada “Valete” funciona como monetização e “formatação” ideológica simultaneamente: o paper da Compós a enquadra como universo de conteúdo/comunidade e “produção intelectual” incluindo documentários, cursos, fóruns de assinatura e uma revista impressa.
O Livro Amarelo é a peça programática do Partido Missão — apresentado como “plano” em fascículos físicos, com promessa de pesquisa e contribuição de centenas de colaboradores, e oferecido via planos de assinatura com valores mensais e parcelamentos. Funciona simultaneamente como instrumento programático, veículo de arrecadação e construção de comunidade partidária.
EIXO 7 — Masculinidade como infraestrutura e a conexão com a manosphere
7.1. O paper da ANPOCS 2024
O trabalho é de pesquisador da UFPEL (Universidade Federal de Pelotas). O título completo do paper apresentado no encontro de 2024 é “Elon Musk: o CEO da direita — uma representação do ideal de masculinidade para o Movimento Brasil Livre (MBL).” Trata-se de parte de uma tese de doutorado mais ampla sobre construções de masculinidade na nova direita brasileira. A questão central de pesquisa: “Quais são as principais características da masculinidade hegemônica construída pelo MBL?”
Metodologia: Imersão digital oculta (lurking) no canal oficial do MBL no Telegram. O pesquisador acompanhou os tópicos gerados no canal sem interagir, analisando interações e conteúdo. O paper também conecta o crescimento do Telegram entre grupos de direita às dinâmicas de “deplatforming” e maior regulação nas plataformas principais, enquadrando o Telegram como refúgio estratégico para ecossistemas de discurso de direita.
Achados centrais:
- A masculinidade hegemônica construída pelo MBL é centrada na figura do self-made man atualizado para o capitalismo tecnológico — o “empresário que forja uma masculinidade no mercado financeiro.”
- O ideal masculino promovido é o do individualismo empreendedor: autonomia, competição, razão pró-mercado.
- Elon Musk funciona como representação simbólica desse ideal: o bilionário que constrói foguetes, desafia governos, fala sem filtro. O MBL o constrói como modelo de masculinidade aspiracional — e como aliado simbólico contra a “hegemonia cultural progressista.”
- As principais antíteses (masculinidades rejeitadas) se organizam contra adversários políticos e contra masculinidades/feminilidades que “fogem do escopo heteronormativo.”
- Frames de “cultura woke” são explicitamente apresentados como ameaça à família “tradicional” e à masculinidade. O fundador Renan Santos é citado discutindo temas como “Superman bissexual” como parte do retrato do “woke” como ataque à cultura tradicional.
- A síntese final caracteriza um ideal-tipo de masculinidade em torno de individualismo, competição e “agressividade como valor positivo,” alinhado com ideologia empreendedora e narrativas “heróicas” — precisamente o território semântico que internacionalmente se sobrepõe com retóricas adjacentes à manosphere (self-made man, anti-”woke,” anti-solidariedade, força/competição).
- O pesquisador identifica uma tensão: na prática, a masculinidade desempenhada pelos sujeitos “não consegue ser racional como seu ideal inspira” e “se confunde com práticas que os mesmos sujeitos” rejeitam teoricamente.
A tese mais ampla (disponível no repositório da UFPEL) se intitula “As construções de masculinidades a partir da imersão no canal de Telegram do MBL” e amplia a análise para múltiplos eixos.
7.2. A estética clássica como codificação masculina
Não existe análise acadêmica que conecte explicitamente as casas Esparta/Atenas/Alexandria ao universo da manosphere ou do estoicismo pop masculino. Essa conexão é analiticamente poderosa mas permanece como hipótese a ser formulada. O que é documentável:
- A linguagem de “forjar” (Esparta) é militarista e masculina por definição histórica.
- O estoicismo pop de Ryan Holiday (O Obstáculo é o Caminho, Diário Estoico) é consumido predominantemente por homens jovens e é pilar da manosphere “elevada” (em oposição à manosphere crua do Red Pill).
- A escolha de Esparta (não Atenas) como casa dos líderes é significativa: Esparta é o modelo de disciplina militar, lealdade absoluta, força bruta — não de debate democrático.
Para citar diretamente um frame de “frustração” na mensagem atual do partido, o site do Missão declara que visa transformar os “anseios e frustrações da nova geração” em um plano concreto — apelo explícito ao ressentimento geracional como matéria-prima política.
7.3. O público e o perfil demográfico
Dados diretos sobre o perfil dos alunos da Academia MBL são escassos. O que existe:
- O público eleitor do MBL/Missão é predominantemente jovem (16–34 anos) e concentrado em São Paulo. Pesquisa AtlasIntel de março de 2026 mostra Renan Santos com 24,7% entre jovens de 16–24 anos, crescimento de 8,8 pontos em um mês.
- A Gazeta do Povo reportou em dezembro de 2025 que Renan Santos ficou em segundo lugar entre os mais jovens em pesquisa eleitoral.
- O próprio Renan Santos disse que “a estratégia é apostar que o segmento [Geração Z] impulsione a candidatura, como ocorreu no passado.”
- O público que foi aos eventos do Congresso do MBL em novembro de 2025, segundo reportagem do Metrópoles: jovem, urbano, informal (cerveja e food trucks).
- Renan Santos afirmou que o Missão busca representar “especialmente brasileiros de 35 anos para baixo.” Sua fala sobre jovens recrutados pelo crime é reveladora: “homens entre 15 e 25 anos, vindos de famílias monoparentais” para quem é necessário garantir “figuras masculinas de exemplo.” Este perfil — homens jovens, sem referência masculina, vulneráveis ao crime — é o perfil exato do público da manosphere e do pipeline de radicalização digital.
O que falta para confirmar plenamente: Não existe pesquisa de audiência ou perfil socioeconômico dos alunos da Academia MBL. A hipótese de descida na pirâmide social é plausível e coerente com os dados disponíveis, mas sem evidência direta que documente a composição do público da Academia.
7.4. A sobreposição com Marçal e com Bolsonaro
A comparação entre Renan Santos e Pablo Marçal é feita explicitamente pela CNN Brasil (abril de 2026, Renato Dolci): “A trajetória de Renan Santos guarda paralelos com a de Pablo Marçal na disputa pela prefeitura de São Paulo em 2024. Ambos são outsiders que exploram as redes sociais como ferramenta central de campanha, ambos se posicionam contra a direita estabelecida, ambos capitalizam sobre o desejo de renovação de um eleitorado jovem. Ambos também utilizavam o mesmo arsenal: vídeos curtos, provocações, ataques diretos aos adversários, presença massiva no TikTok e Instagram.”
A comparação é de método (comunicação digital agressiva) e público (jovem masculino conservador). A diferença: Marçal vende transformação individual (empreendedorismo, riqueza); Renan vende transformação coletiva (partido, refundação do Brasil). Marçal citou Andrew Tate; o MBL tem Ryan Holiday. Ambos operam na interseção entre infoproduto e política. A CNN aponta que Renan está fazendo com Flávio Bolsonaro “o mesmo que Marçal fez com [toda a direita].”
EIXO 8 — Relação com Bolsonaro e a disputa interna da direita
A relação do MBL com o bolsonarismo é melhor descrita como proximidade coalicional → aliança tática → ruptura competitiva → tentativa de ocupar a faixa da direita pós-bolsonarista — em vez de uma história limpa de “moderados vs. radicais.”
Múltiplas fontes resumem que o MBL apoiou ou ajudou a viabilizar a ascensão de Jair Bolsonaro em 2018, depois se posicionou como oposição e chegou a promover pedidos de impeachment. O Poder360 reportou que o MBL protocolou pedido de impeachment de Bolsonaro em 27 de abril de 2020, com Kim Kataguiri como face pública da iniciativa; o banco de dados de impeachments da Agência Pública também registra o pedido e o contextualiza como parte de uma virada mais ampla.
Sobre o caráter competitivo da ruptura, um relatório de 2021 do The Intercept Brasil argumenta que a divisão não deve ser compreendida como “moderados vs. extremistas,” mas como fratura interna com competição por controle de infraestrutura partidária (à época, disputas em torno do Patriota/Patriotas). Em outras palavras, a ruptura é real, mas também é uma luta pelo mesmo público, pelas mesmas táticas digitais e pela mesma faixa de “renovação da direita”.
A Veja (2018) documenta a lógica de parceria política do MBL antes do apoio a Bolsonaro no segundo turno: o grupo trabalhou para João Doria quando o tucano tinha pretensões presidenciais, depois abandonou-o quando se mostrou inviável, flertou com Jair Bolsonaro mas “o encantamento durou pouco,” e então encontrou Flávio Rocha (Riachuelo) — publicando 91 posts exaltando o empresário só no início de 2018. A Veja descreve o MBL nesse contexto como “noiva interesseira” que busca parceiros com ambição e visibilidade para oferecer. Flávio Rocha afirmou à época nunca ter pago nada ao movimento.
Renan Santos declarou: “Bolsonaro é um parasita de um processo histórico de tomada de consciência da classe média que começou em 2013.” O Missão se posiciona como alternativa à “direita corrupta” de Flávio Bolsonaro. Para o MBL, Bolsonaro é o teto que precisa ser destruído para o campo da direita “ressurgir.”
CPAC: Funciona menos como “evento do MBL” e mais como marcador do networking transnacional bolsonarista. Reportagem da Agência Pública trata o CPAC como posicionamento do Brasil dentro de um ecossistema de direita internacional e atribui a importação brasileira do CPAC a Eduardo Bolsonaro. Cobertura separada documenta a centralidade de Bolsonaro nas edições posteriores (ex: 2024). Nas fontes coletadas, o MBL não é documentado como estrutura “proprietária” do CPAC; o CPAC opera como parte do ecossistema mais amplo de direita no qual o MBL compete por público e legitimidade.
A evolução ideológica: O padrão mais sustentado é a passagem de uma identidade primariamente liberal de mercado/libertária para uma formação de direita híbrida onde os frames de guerra cultural e “anti-woke” se tornam centrais, e onde a construção do partido força escolhas pragmáticas (incluindo abraçar o financiamento público de campanha). O paper da Compós menciona explicitamente a “cultura woke” como objeto de combate na comunicação estratégica do ecossistema.
EIXO 9 — Controvérsias
9.1. O escândalo dos áudios da Ucrânia (2022)
Envolvendo Arthur do Val, é o mais grave em consequências eleitorais. A Agência Brasil reporta que a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) votou unanimemente para cassar seu mandato por quebra de decoro, tornando-o inelegível por oito anos. A Câmara Federal também registrou repúdio público às suas declarações por meio de moção aprovada unanimemente. O episódio é amplamente tratado como ponto de ruptura que danificou a estratégia eleitoral do MBL para 2022 e reforçou a virada para um projeto de funil + partido mais controlado.
9.2. A controvérsia de governança e financiamento (MRL)
A investigação do El País descreve a estrutura MRL (Movimento Renovação Liberal) como associação privada registrada em nome de poucos indivíduos ligados à família Santos, para a qual eram roteados doações, vendas de produtos e “filiações” do movimento. Os doadores não tinham direitos de governança dentro da entidade. O artigo questiona se o MRL se qualificava de fato como OSCIP (citando comentário jurídico especializado). Esta é uma controvérsia estrutural, não uma alegação de criminalidade provada; o relevante é a arquitetura documentada e a crítica que ela gerou.
9.3. Disputa pela marca “MBL” (2017–2019)
A marca “MBL” virou campo de batalha institucional. Em 10 de novembro de 2017, o TJDFT registrou decisão/liminar proibindo Alexandre Frota e uma associação de utilizarem a marca. Em 2019, cobertura jornalística descreveu o encerramento do processo administrativo no INPI com o registro encerrado em favor de terceiros — ato administrativo que confirma o peso do ativo “marca” para o movimento.
9.4. Operação Juno Moneta (julho de 2020)
Em 10 de julho de 2020, o Ministério Público de São Paulo, a Receita Federal e a Polícia Civil deflagraram a Operação Juno Moneta, investigando esquema de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal envolvendo empresários descritos pelo MP-SP como “ligados ao MBL.” Houve prisões temporárias e operações de busca e apreensão. Os desfechos processuais consolidados (denúncia, condenação ou arquivamento) não estão facilmente rastreáveis em fonte pública única — consulta direta a bases de jurisprudência é necessária para atualização.
9.5. Caso Flow / partido nazista (fevereiro de 2022)
Em 7–9 de fevereiro de 2022, declarações de Kim Kataguiri num episódio do podcast Flow — envolvendo discussão sobre criação de um “partido nazista” — geraram investigação da PGR (Procuradoria-Geral da República) e tramitação no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Kim fez pronunciamento público de desculpas no plenário da Câmara. O episódio tem documentação clara de abertura de investigação e tramitação no Conselho de Ética, mas o encerramento consolidado com número de inquérito e decisão final não aparece em uma única fonte aberta. Subsequentemente, em 2025, Kim apresentou proposta legislativa para tipificar apologia ao nazismo e ao comunismo — iniciativa que dialoga diretamente com a controvérsia de 2022.
9.6. Desinformação e enforcement de plataformas
Críticas e investigações em torno de páginas adjacentes ao MBL e ações de enforcement do Facebook circularam nos ecossistemas de mídia de 2018–2019 (parcialmente ligadas a mudanças de política das plataformas após as eleições americanas de 2016). Uma análise de ética de mídia no Observatório da Imprensa trata o “Caso MBL” como sinal sobre o papel do Facebook no combate à desinformação e as pressões institucionais em torno dessas redes. A discussão do paper da Compós sobre “campanhas apócrifas sem identificação direta do MBL” adiciona uma camada importante, não jurídica: a estratégia de comunicação do próprio grupo é descrita como buscando influência ocasionalmente sem atribuição direta de marca.
EIXO 10 — Evolução temporal: fases e linguagem
10.1. As quatro fases do MBL (documentadas com evidências)
Fase 1 (novembro de 2014 – agosto de 2016): Máquina antipetista
- Fundação em 1/11/2014. Cinco fundadores: Alexandre Santos, Renan Santos, Kim Kataguiri, Frederico Rahu, Gabriel Calamari. Origem direta no EPL/Students for Liberty.
- Criado como “marca” do EPL para atuar em manifestações (confissão de Juliano Torres, 2015).
- Treinamentos via Atlas Leadership Academy. Kim Kataguiri identificado pelo Atlas como “estrela libertária emergente.”
- Organização das manifestações pró-impeachment (2015–2016).
- Operações de memes industriais, compra de páginas de Facebook, falsa bandeira (outdoor de Curitiba).
- Pedro D’Eyrot importa técnicas de viralização da indústria musical para a política.
- Referências teóricas: Ryan Holiday (Trust Me, I’m Lying), liberalismo austríaco (Mises/Hayek), Atlas Network.
Nota adicional: o canal de YouTube “mblivre” foi criado tecnicamente em 17 de outubro de 2014 — evidência objetiva do “nascimento digital” anterior à fundação formal.
Em abril de 2015, polêmica com declarações de liderança do movimento comparando Zumbi dos Palmares a Hitler ilustra o uso de “frase forte” como método deliberado de captura de atenção.
Fase 2 (agosto de 2016 – dezembro de 2019): Crise de relevância + apoio a Bolsonaro
- Pós-impeachment: o inimigo caiu. Crise existencial.
- Tentativas de recuperar relevância: invasão de ocupações de escolas (outubro de 2016), confrontos fabricados, provocações a famosos.
- Compra da página Corrupção Brasileira Memes (2016–2017).
- 2016: divulgação de áudios sugerindo pedidos de apoio logístico a partidos — evidência de articulação político-partidária em paralelo ao discurso “apartidário.”
- 10/11/2017: decisão judicial (TJDFT) proibindo uso da marca “MBL” por Alexandre Frota e associação vinculada.
- Facebook remove páginas do MBL por disseminação de conteúdo falso (julho de 2018).
- Apoio a Bolsonaro no segundo turno de 2018.
- Fernando Holiday eleito vereador em SP (2016).
- Kim Kataguiri eleito deputado federal (2018).
- Fev/2019: INPI encerra processo administrativo sobre a marca em favor de terceiros.
Fase 3 (janeiro de 2020 – dezembro de 2022): Rompimento com Bolsonaro + institucionalização inicial
- Pedido de impeachment de Bolsonaro (2020–2021).
- 10/7/2020: Operação Juno Moneta — MP-SP/Receita/Polícia investigam lavagem e sonegação envolvendo empresários “ligados ao MBL.”
- 30/9/2020: áudios internos sugerindo plano de “comprar assinaturas” para acelerar criação do partido — indicação de que o objetivo partidário era estratégico desde antes do Missão.
- Lançamento da Academia MBL (março de 2021). Marco estrutural: é aqui que o MBL deixa de ser apenas provocação digital e começa a construir formação/recrutamento estruturado. As casas Esparta/Atenas/Alexandria aparecem nesse momento. FHC dá aula magna — sinal de legitimação institucional.
- 12/9/2021: atos “Nem Lula, nem Bolsonaro” marcam a fase de “terceira via” — com baixa adesão em algumas praças, segundo cobertura da época.
- Em retrospecto (Antagonista, novembro de 2024), Renan Santos admitiu sobre esse período: “não tinham construído seus limites ideológicos” e que a identidade “ao redor de 2019 e 20 era muito difusa no campo da direita.” Fez “mea culpa em relação ao clima de extremismo político pelo qual se reconheceram como responsáveis pela retórica inflexível contra o PT” e reconheceu que a comunicação “frequentemente se valeu de simplismos e de ódio.”
- 7–9/2/2022: Caso Flow — Kim Kataguiri em debate sobre criação de “partido nazista”; PGR abre investigação; tramitação no Conselho de Ética; pronunciamento público de desculpas na Câmara.
- 3–4/3/2022: Escândalo Arthur do Val/Ucrânia — áudios sexistas sobre refugiadas, cassação do mandato, inelegibilidade por 8 anos.
- 22/8/2022: entrada de Wilker Leão (YouTuber) no MBL com bolsa na Academia — exemplo do recrutamento via “celebridades de rede.”
- Eleições de 2022: apenas dois eleitos (Kim Kataguiri, Guto Zacarias). Resultado fraco que reforça a necessidade de maior estruturação.
Fase 4 (novembro de 2023 – presente): Partido Missão + candidatura presidencial
- 8º Congresso Nacional do MBL (novembro de 2023): anúncio da fundação do Partido Missão.
- Lançamento da ESL — Escola Superior de Líderes (fevereiro de 2024): meta de 50 lideranças.
- Coleta de assinaturas (2023–2025): 577.999 apoios válidos presencialmente, com presença em diretórios estaduais mínimos em 9 UFs.
- 12/11/2024: denúncias de coleta de assinaturas sem informar aos signatários a finalidade — controvérsia de método e transparência na fase de criação partidária.
- 6/10/2024 (1º turno municipal): síntese da Folha/Painel registra 15 vereadores e 1 vice-prefeita eleitos no campo MBL — primeira eleição com uso do Fundão.
- Registro do Partido Missão no TSE (4 de novembro de 2025). Número 14. Registro aprovado por unanimidade com exigência de ajustes estatutários em 90 dias.
- Renan Santos como presidente do partido e pré-candidato à presidência.
- Virada ideológica documentada (Folha, setembro de 2025): “A gente está se afastando da ideia do liberalismo inicial do MBL e hoje pode ser enquadrado como um partido no campo da direita altamente pragmático. Nosso programa, que é o Livro Amarelo, em termos econômicos conversa com muita coisa do ponto de vista liberal, mas flerta com desenvolvimentismo também. Não há um dogmatismo nisso.” O Livro Amarelo cita a Embrapa como modelo, defende crédito subsidiado para o agro, propõe industrialização do Nordeste. Em entrevista ao Poder360, Renan reconheceu que a posição anterior era “uma crítica pueril” e que agora reconhece “casos isolados em que o Estado deve agir com protagonismo.” A Folha resumiu (maio de 2024): o MBL “rejeita liberalismo extremado e defende papel do Estado.” O nome “Livro Amarelo” é provocação calculada: referência ao Livro Vermelho de Mao e ao Livro Verde de Gaddafi.
- Outubro de 2025 — “plano de guerra contra o crime”: Renan Santos anuncia presídios “nos moldes salvadorenhos,” prisão perpétua para comandantes de facções, fim da progressão de regime, lema “Prendeu, matou.” Declaração: “Defendemos que o país declare guerra ao crime organizado, com a aplicação do direito penal ao inimigo e a eliminação total, inclusive física, dos traficantes de drogas. Eles precisam ser mortos ou presos para sempre.” O coordenador nacional Renato Battista ao Metrópoles: “O que a gente defende é um modelo de ‘bukelização’ no Brasil, igual foi feito em El Salvador, com construção de megapresídios, com encarceramento e declaração formal de guerra ao crime.” A Gazeta do Povo registrou: “a ênfase na segurança pública consolida a nova fase do MBL, que deixou em segundo plano os apelos ao liberalismo econômico e elaborou um programa inspirado em Nayib Bukele.” Fernando Holiday comentou: “Penso que eles escolheram uma figura menos conhecida [Renan] para testar discursos. O Renan vai testar um discurso muito radicalizado no quesito segurança pública.”
- Novembro de 2025 — 1º Festival do MBL: Renan defende “desfavelização” como bandeira central, com investimento de “R 90 bilhões em desfavelização, com construtoras de fora do Brasil.”
- Linguagem muda: de “Fora Dilma/Fora Bolsonaro” para “refundação do Brasil,” “guerra ao crime organizado,” “desfavelização.”
- Pesquisa AtlasIntel (março de 2026): Renan Santos com 24,7% entre jovens de 16–24 anos.
- Kim Kataguiri propõe emenda constitucional para produção de armas nucleares e defende pena de morte para membros de facções.
- Março/abril de 2026 — comparação com Milei: Em entrevista ao Estadão, Renan abraça a comparação: “O Milei fez uma campanha de sincericídio. É o que eu estou fazendo também. Ele simplesmente saiu falando o que precisava ser dito. Sem filtro, sem se preocupar com as consequências. Vou falar mal do Bolsa Família no Nordeste.” Confessou: “No início, não levei Milei a sério e cheguei a considerá-lo louco, mas depois passei a concordar com suas ideias.” Disse ainda: “Sou uma pessoa muito peculiar. O Milei também é. Não gosto de boa parte das coisas que os brasileiros gostam. Não gosto da cultura brasileira de massa e falo que não gosto. As pessoas vão me eleger para ser presidente, não amigo delas.” Em dezembro de 2025 havia comparado explicitamente sua estratégia à de Milei, Bolsonaro e Trump.
- Tripé institucional formalizado: Valete (cultura) + MBL (movimento) + Missão (partido).
10.2. A linguagem ao longo do tempo
2014–2016: Memes de indignação. “Fora Dilma.” Provocação pura. Linguagem de combate, humor agressivo, ironia memética. A estética é a do meme propositalmente tosco — Pedro D’Eyrot confirma que era deliberadamente “anti-coxinha.”
2021: Transição. A Academia MBL introduz linguagem de formação, casas clássicas, teste de personalidade. Mas a provocação permanece: o curso de “Fundamentos de Memística” é provocação disfarçada de pedagogia.
2024–2026: Linguagem madura: “forjar líderes,” “refundação do Brasil,” “aventura épica,” “uniforme de herói,” “jornada que vai transformar o Brasil nos próximos 20 anos.” A provocação não sumiu — Renan Santos faz “sincericídio” em lives — mas foi absorvida dentro de uma estrutura institucional mais sofisticada. A provocação agora é instrumental (gerar engajamento), não existencial (provar existência).
Sobre masculinidade explícita: A prática da masculinidade agressiva já estava lá desde o início (provocação, confronto, humor ácido), mas a codificação explícita em vocabulário clássico/heroico é posterior — aparece com a Academia em 2021 e se consolida com o Missão em 2023–2025.
EIXO 11 — Presença digital e métricas (fotografia de abril de 2026)
Os números abaixo são voláteis e dependem de plataforma. Úteis para dimensionar alcance, mas não devem ser tratados como dados fixos.
| Canal | Identificador | Métrica pública |
|---|---|---|
| YouTube | ”mblivre” | ~1,34 milhão de inscritos; ~362 milhões de visualizações (estimado por medidor terceiro) |
| @mblivre | 973 mil seguidores | |
| X/Twitter | @MBLivre | 542.813 seguidores |
| /mblivre | 2.889.977 curtidas (aprox.) | |
| Telegram | Canal oficial MBL | 26.449 inscritos |
| TikTok | — | Dados não recuperáveis por bloqueio de acesso automatizado |
Nota: métricas de alcance declaradas pelo próprio movimento (ex: página de “porta-vozes” do MBL com totais de seguidores e votos) devem ser tratadas como self-marketing, não como analytics auditados.
EIXO 12 — Comparações internacionais
MBL e Tea Party (EUA)
A comparação circula desde 2014–2016. A Piauí descreve explicitamente o MBL como “Tea Party à brasileira” e relata treinamento de militantes e disciplina organizativa. A analogia é de método e função: ambos são movimentos de ativismo de base que profissionalizam militância e pressionam o campo político sem (inicialmente) terem partido próprio. A diferença central, vista retrospectivamente: o MBL migrou para a lógica partidária própria (Missão) — movimento inverso ao “ficar dentro de um partido estabelecido,” associado ao Tea Party dentro do Partido Republicano.
MBL e Movimento 5 Estrelas (Itália)
A comparação é analítica, não histórica (sem origem comum). Serve para entender como internet, desintermediação e “marca” podem virar organização eleitoral: o M5S é o caso típico internacional que a literatura acadêmica brasileira usa ao analisar anti-establishment e outsiders digitais. O paralelo com o Missão é evidente: ambos converteram presença digital difusa em partido formal.
MBL e ecossistema “alt-right”/extrema-direita digital
A utilidade aqui está em comparar métodos e ecossistemas de plataforma (comunidades, linguagem de choque, estética), não em colar identidades ideológicas. Pesquisas sobre ativismo digital de extrema-direita descrevem a circulação de repertórios — “ganhar corações e mentes antes do parlamento” — e conectam esse fenômeno ao caso brasileiro. O canal de Telegram do MBL figura como objeto em pelo menos uma pesquisa acadêmica sobre ecossistemas de extrema-direita na plataforma.
EIXO 13 — A ideologia como variável dependente
13.1. O padrão: personas de consumo, não evolução intelectual
A sequência Hayek → guerra cultural → vácuo → desenvolvimentismo → Bukele → Milei não é uma evolução intelectual. É uma sequência de personas de consumo calibradas para o público disponível em cada momento. Cada mudança corresponde a uma leitura do que o público-alvo quer ouvir, não a uma revisão de princípios.
| Período | Referência | Produto ideológico | Cliente-alvo |
|---|---|---|---|
| 2014–2016 | Hayek, Mises, Atlas Network | Estado mínimo, privatização | Classe média alta antipetista |
| 2017–2019 | Bolsonaro, guerra cultural | Liberalismo + conservadorismo moral | Base antipetista ampliada |
| 2020–2022 | Nenhuma clara | ”Terceira via” | Indefinido (público em fuga) |
| 2023–2024 | Embrapa, Vietnã, desenvolvimentismo | Pragmatismo econômico | Eleitorado amplo, Nordeste |
| 2025 | Bukele, El Salvador | Mão de ferro, megapresídios | Classe média com medo do crime |
| 2026 | Milei | ”Sincericídio,” ruptura antissistema | Homem jovem digital, Geração Z |
A infraestrutura permanece a mesma em todas as fases: provocação digital, redes sociais, linguagem de guerra, pipeline de recrutamento (Academia → ESL → Partido). O que muda é a embalagem ideológica que veste essa oferta.
13.2. A contradição não resolvida: Bukele e o Estado mínimo
O modelo Bukele — estado de exceção permanente, encarceramento em massa, Direito Penal do Inimigo, megapresídios estatais — é o oposto do Estado mínimo que o MBL defendia em 2015. Desfavelização com R$ 70–90 bilhões é política pública pesadíssima, com Estado protagonista. Assim como Milei, cujas posições econômicas são incompatíveis com o desenvolvimentismo do Livro Amarelo. Ninguém no MBL parece notar ou se importar com a contradição — porque a ideologia é embalagem, não núcleo.
13.3. O que Renan Santos diz sobre isso
Ele não nega a mudança. Chama de “pragmatismo” e apresenta como virtude:
- “Não há um dogmatismo nisso.” (Folha, setembro de 2025)
- “Vamos fugir de ortodoxias ideológicas.” (Antagonista, novembro de 2024)
- “A gente está se afastando da ideia do liberalismo inicial do MBL.” (Folha, setembro de 2025)
- “Nós fazíamos uma crítica pueril.” (Poder360, setembro de 2025)
- “A natureza nossa é questionadora, meio punk rock.” (Folha, setembro de 2025)
No vocabulário de Renan, “pragmatismo” não significa o que significa em filosofia política (testar ideias pela consequência prática). Significa: não ter compromisso com nenhuma ideia que limite a capacidade de capturar público.
13.4. Implicação para o modelo
O MBL opera como plataforma de infoproduto político, não como movimento ideológico. A ideologia é o conteúdo do curso — muda conforme o mercado. A infraestrutura é permanente: o pipeline de recrutamento, o sistema de casas (Esparta/Atenas/Alexandria), a fábrica de memes, a linguagem de masculinidade heroica. O público é o mesmo em todas as fases — homens jovens frustrados que querem pertencimento, identidade e propósito. O que muda é só a embalagem ideológica que veste essa oferta.
Isso fecha a hipótese de Holiday: ele escreveu dois tipos de livro — como manipular a mídia e como ser estoico. O MBL construiu duas máquinas — uma que manipula a mídia e uma que forma quadros com estética clássica. A ideologia que circula por essas máquinas é intercambiável. A máquina, não.
Lacunas e hipóteses analíticas
- Não há fonte que tenha feito explicitamente a conexão “duas faces de Holiday = duas operações do MBL.” Este é um achado analítico que pode ser original.
- Não há perfil demográfico dos alunos da Academia MBL. A hipótese de descida na pirâmide social é plausível e coerente com os dados, mas indocumentada.
- A ESL tem poucos dados públicos. O conteúdo programático detalhado, o número de turmas e a lista de graduados não estão disponíveis.
- Não há análise acadêmica conectando casas clássicas → manosphere → estoicismo pop de Holiday em um único argumento.
- Fernando Holiday + Ryan Holiday: a Veja afirma que Fernando tirou o sobrenome de Ryan Holiday; Fernando nega oficialmente. Não há fonte independente que resolva a divergência. O ponto não é mais “apenas coincidência” — é uma afirmação jornalística direta contestada pela versão oficial do próprio Fernando.
- Não há fonte que prove laços institucionais diretos entre o MBL e cada instituto brasileiro individualmente (ex: Instituto Mises Brasil); o que está documentado é o pipeline de pessoal compartilhado, os marcadores ideológicos e o milieu transnacional.
- Desfechos processuais da Operação Juno Moneta e do Caso Flow (denúncia, condenação, arquivamento) não estão facilmente rastreáveis em fonte pública única — exigem consulta direta a bases de jurisprudência.
- Finanças permanecem o maior “buraco” verificável: como movimento, o MBL não oferece publicamente o mesmo padrão de contas partidárias. As principais janelas de informação vêm de investigações e de ofertas comerciais expostas (cursos, loja, assinaturas). Auditoria real exigiria CNPJs, declarações fiscais, contratos e rastreio bancário.
Fontes principais utilizadas
- “O Mundo Mágico do MBL” — Veja, Eduardo Gonçalves (março de 2018)
- “Como o MBL monopolizou as fábricas meméticas de direita no Brasil” — Vice, Julia Reis e Marcos Fantini (dezembro de 2018)
- “A nova roupa da direita” — Agência Pública (junho de 2015)
- Manual do Aluno da Academia MBL 2023 — disponível no Scribd
- “Elon Musk: o CEO da direita — uma representação do ideal de masculinidade para o MBL” — ANPOCS 2024, pesquisador da UFPEL
- “As construções de masculinidades a partir da imersão no canal de Telegram do MBL” — Repositório UFPEL (tese de doutorado)
- Artigo peer-reviewed, Revista Angelus Novus — origens e financiamento do MBL
- Artigo — Crítica Educativa — origem “marca primeiro” e EPL
- Comparação acadêmica 2013 vs. ciclo de impeachment — análise publicada em 2024
- Paper da Compós 2025 — transformação organizacional-comunicacional do MBL (2014–2024)
- Paper da ANPOCS 2024 — masculinidade hegemônica no MBL
- “Exclusivo: nos inscrevemos na ‘academia’ do MBL” — Diário do Centro do Mundo, Zambarda (março de 2021)
- “‘Academia de política’ do MBL é aposta do grupo em busca de renovação” — Estadão/Terra (março de 2021)
- “Da manosphere à machosfera” — Revista Eco-Pós/UFRJ, Vilaça e D’Andréa (2021)
- “O poder da Atlas Network” — Kátia Gerab Baggio (2017)
- “O MBL e sua rede” — Fundação Maurício Grabois (novembro de 2017)
- El País — investigação sobre MRL e estrutura financeira do MBL (2017)
- The Intercept Brasil — análise da ruptura MBL/Bolsonaro como disputa interna (2021)
- Poder360 — pedido de impeachment de Bolsonaro pelo MBL (2020)
- Agência Pública — banco de dados de pedidos de impeachment
- Agência Brasil — cassação do mandato de Arthur do Val (2022)
- Observatório da Imprensa — “Caso MBL” e Facebook
- Datafolha — perfil dos manifestantes da Avenida Paulista (2015)
- AtlasIntel — pesquisa eleitoral março de 2026
- Gazeta do Povo — eleições municipais 2020 e 2025; pesquisa eleitoral dezembro de 2025
- CNN Brasil, Renato Dolci — “Renan Santos ganha onde a política tradicional perde” (abril de 2026)
- Política Livre — lançamento da ESL (fevereiro de 2024)
- Metrópoles — Congresso do MBL novembro de 2025
- Revista Oeste — resultado eleitoral 2024 e uso do Fundão
- Piauí — grupo de WhatsApp com executivos do mercado financeiro (2017)
- IstoÉ Dinheiro — “Academia de política” do MBL
- Wikipedia — Partido Missão; TSE — registro do partido
- Site oficial: academia.mbl.org.br, missao.org.br, mbl.org.br
- Operação Juno Moneta — MP-SP/Receita/Polícia (julho de 2020)
- TJDFT — decisão sobre disputa da marca “MBL” (novembro de 2017)
- INPI — processo administrativo da marca (encerramento fev/2019)
- Caso Flow — PGR e Conselho de Ética da Câmara (fevereiro de 2022)
- Cobertura sobre coleta de assinaturas sem informar finalidade (novembro de 2024)
- Folha/Painel — síntese eleições municipais 2024 (outubro de 2024)
- Métricas de plataformas digitais — fotografia de abril de 2026 (YouTube, Instagram, X, Facebook, Telegram)
- Livro Amarelo e planos de assinatura — site missao.org.br
- “Presidente de partido do MBL vê implosão do bolsonarismo” — Folha de S.Paulo (setembro de 2025)
Ver também
- direita_radical — o MBL é o caso brasileiro central da direita populista pós-2013: como a retórica libertária se radicaliza em segurança pública e populismo eleitoral
- pablo_marcal — contraste geracional e de estilo: Marçal opera a mesma gramática de masculinidade performativa fora do enquadramento institucional do MBL
- thymos — o ativismo de direita como busca de reconhecimento: o “founder myth” do MBL e a masculinidade como plataforma tímica para jovens sem pertencimento político tradicional
- As Ideologias do Vale do Silício — O Marxismo Invertido dos Bilionários — paralelo internacional: mesma fusão de masculinidade performativa, antigerencialismo e populismo, com vocabulário tech e base de classe radicalmente diferente
- A Velocidade da Nova República — Por Que Nenhum Consenso Se Forma — o MBL emerge e se metamorfoseia exatamente no vácuo de consenso da Nova República; cada fase do movimento reflete a incapacidade sistêmica de processar conflito em quadro institucional comum
- “Partido Missão, do MBL, terá candidatos para todos os cargos” — Poder360 (setembro de 2025)
- “MBL 10 Anos: somos dissidentes” — O Antagonista (novembro de 2024)
- “Reflexões sobre o novo Partido Missão no congresso do MBL” — Gazeta do Povo (dezembro de 2024)
- “Partido do MBL quer eliminar traficantes” — Gazeta do Povo (julho de 2025)
- “MBL propõe plano de guerra contra o crime organizado” — O Antagonista (outubro de 2025)
- “Renan Santos se compara a Milei” — Estadão (março/abril de 2026)
- “Fundador do MBL busca se diferenciar de Bolsonaro e se inspira em Milei” — InfoMoney/Estadão (abril de 2026)
- “Modelo de segurança de El Salvador na campanha presidencial” — Gazeta do Povo (junho de 2025)
- “Membros do União Brasil comemoram saída de MBL” — Metrópoles (novembro de 2025)
- “O que é o partido Missão” — Gazeta do Povo (janeiro de 2026)