Antissionismo: genealogia de uma ressignificação
O termo “sionismo” passou, em pouco mais de meio século, de designação de um movimento de autodeterminação nacional judaica a insulto político equivalente, em vastos setores da esquerda global, a racismo, colonialismo e nazismo. Essa metamorfose semântica não foi acidental nem inteiramente espontânea: resultou da convergência entre uma campanha deliberada de desinformação — com epicentro na União Soviética e ramificações no mundo árabe, no Terceiro Mundo e nas Nações Unidas — e condições reais no terreno (ocupação, assentamentos, violência contra palestinos) que deram verossimilhança ao novo frame. Este ensaio reconstrói as etapas dessa ressignificação, da origem do termo ao colapso semântico contemporâneo.
Para este vault, o ensaio importa como estudo de caso inaugural da mecânica descrita em A Fábrica de Conceitos — Como a Propaganda Transforma Enquadramentos em Convicções: como enquadramentos fabricados por atores estatais se naturalizam via movimentos sociais com legitimidade moral genuína até virar senso comum orgânico. O caso brasileiro é especialmente relevante: a equiparação de Israel ao nazismo feita pelo presidente Lula em fevereiro de 2024 — que provocou expulsão do embaixador israelense e crise diplomática inédita — representa a completude do ciclo, do memo de Andropov ao discurso presidencial.
A ressignificação pode ser decomposta em três camadas: a soviética (1967–1991), que fabricou o frame “sionismo = racismo” via KGB, sionologia pseudo-acadêmica e Resolução 3379 da ONU (1975); a terceiro-mundista e acadêmica (1975–2005), que naturalizou o frame via movimentos anticoloniais e o conceito de settler colonialism (Patrick Wolfe, Lorenzo Veracini), com Durban (2001) como ponto de inflexão; e a midiática-ativista (2001–presente), amplificada pelo BDS e pelo ecossistema digital pós-outubro de 2023. Dois frameworks teóricos iluminam o mecanismo: a anatomia da pré-propaganda, das palavras-gatilho e da ortopraxia de Ellul; e a trindade influenciador-algoritmo-multidão de DiResta.
1. O significado original: sionismo como autodeterminação judaica
O sionismo nasce como movimento político moderno no final do século XIX, num contexto de nacionalismos europeus e de antissemitismo crescente. Theodor Herzl, jornalista austro-húngaro, publica Der Judenstaat (O Estado Judeu) em 1896, argumentando que a emancipação liberal não bastaria para proteger os judeus europeus e que a solução era a criação de um Estado nacional judaico. Em 1897, o Primeiro Congresso Sionista, em Basileia, adota o “Programa de Basileia”: o sionismo busca estabelecer um lar na Palestina para o povo judeu, assegurado pelo direito público.
O movimento nunca foi monolítico. Abrigou correntes diversas: o sionismo trabalhista (socialista, cooperativista, dominante nos primeiros governos israelenses), o sionismo revisionista (nacionalista de direita, linhagem de Jabotinsky e depois Likud), o sionismo cultural (Ahad Ha’am, focado em renascimento cultural hebraico mais que em soberania territorial) e o sionismo religioso (fundamentação teológica para o retorno à terra). Essa pluralidade interna é relevante porque a ressignificação posterior opera por homogeneização: “sionismo” passa a designar uma coisa só — e essa coisa é o que o crítico quiser projetar.
2. Antissionismo pré-soviético: oposição árabe e tensões no Mandato Britânico
A oposição árabe ao projeto sionista é anterior à Guerra Fria e tem raízes no conflito demográfico e territorial gerado pela imigração judaica para a Palestina sob o Mandato Britânico (1920–1948). As revoltas árabes de 1936–1939, a rejeição do Plano de Partilha da ONU (1947) e a guerra de 1948 (Nakba para os palestinos, Guerra de Independência para os israelenses) constituem uma oposição política legítima baseada em reivindicações territoriais, não numa operação semântica sobre o significado do termo “sionismo”. Nessa fase, os árabes se opunham ao sionismo como projeto concreto de colonização e Estado, sem necessariamente empacotar o conceito como equivalente a racismo ou nazismo — embora o Mufti de Jerusalém, Amin al-Husseini, tenha colaborado com a Alemanha nazista nos anos 1940, o que introduziu elementos de retórica antissemita no discurso antissionista regional.
3. A engenharia soviética: a grande ressignificação (1948–1991)
A URSS reconheceu Israel em 1948 e apoiou sua criação — esperando que o sionismo trabalhista produzisse um Estado socialista no Oriente Médio. Quando Israel se alinhou ao Ocidente e os Estados árabes se tornaram clientes soviéticos (Egito de Nasser, Síria, Iraque), Moscou precisou de uma justificativa ideológica para reverter essa posição. O antissionismo serviu.
3.1. A ruptura de 1967
A Guerra dos Seis Dias (junho de 1967) é o ponto de inflexão. A vitória esmagadora de Israel sobre exércitos equipados pela URSS foi uma humilhação geopolítica para Moscou. A resposta não foi apenas militar (rearmamento dos aliados árabes), mas ideológica: a URSS rompeu relações diplomáticas com Israel e lançou uma campanha de propaganda de escala industrial para redefinir o sionismo como inimigo da humanidade.
3.2. A “sionologia” como disciplina fabricada
Os soviéticos criaram uma pseudo-disciplina acadêmica chamada “sionologia” (sionologiya), com institutos, publicações e “especialistas” dedicados a produzir material intelectualmente apresentável que equiparasse sionismo a racismo, imperialismo e fascismo. A KGB mantinha um grupo de cerca de uma dúzia de “sionólogos” que produziram os textos fundacionais da campanha. Alguns desses textos reciclavam material dos Protocolos dos Sábios de Sião — a falsificação antissemita fabricada pela polícia secreta czarista no início do século XX — reempacotado em linguagem marxista-leninista.
O precursor dessa literatura foi Judaísmo Sem Maquiagem (Iudaizm bez prikras), de Trofim Kichko, publicado em 1963 pela Academia de Ciências da Ucrânia com tiragem de 12.000 cópias. O livro trazia na capa uma caricatura de um rabino com nariz adunco e garras segurando um saco de moedas de ouro — iconografia diretamente herdada da propaganda nazista. A reação internacional foi tão intensa que o governo soviético retirou o livro de circulação, mas Kichko não foi punido: publicou uma segunda obra antissionista em 1968 e recebeu honrarias do regime.
3.3. Operação SIG
Segundo Ion Mihai Pacepa — chefe da inteligência exterior romena que desertou para os EUA em 1978 —, o presidente da KGB, Yuri Andropov, lançou em 1972 uma operação de desinformação codinome SIG (Sionistskiye Gosudarstva, “Governos Sionistas”). A operação tinha dois objetivos: (a) fomentar sentimento anti-israelense e anti-americano no mundo árabe e islâmico, e (b) enquadrar o conflito Israel-Palestina não como disputa territorial, mas como luta de libertação contra o colonialismo racista sionista.
Pacepa relata que Andropov pessoalmente supervisionou a fabricação de documentos em árabe alegando que Israel e os EUA eram “países sionistas dedicados a converter o mundo islâmico em colônia judaica”, e que a KGB treinou Yasser Arafat na escola de operações especiais de Balashikha, nos arredores de Moscou, decidindo nos anos 1960 prepará-lo para a liderança da OLP. As alegações de Pacepa são contestadas por alguns historiadores, mas o quadro geral — de envolvimento sistemático soviético na construção do frame antissionista — é corroborado por documentos desclassificados e pela historiografia do período.
3.4. O Comitê Antissionista do Público Soviético (1983)
Em 1983, o Secretariado do Comitê Central do PCUS aprovou a criação do Comitê Antissionista do Público Soviético (AZCSP). A operação era sofisticada: o comitê foi composto majoritariamente por judeus soviéticos (instrumentalizados como prova de que a oposição ao sionismo não era antissemitismo), e sua criação foi anunciada na primeira página do Pravda em 1 de abril de 1983. O comitê produziu declarações, livros e aparições midiáticas que consolidavam a equação sionismo = racismo como posição oficial do Estado soviético.
4. A Resolução 3379 da ONU: a institucionalização global (1975)
O momento de maior sucesso da campanha soviética foi a aprovação da Resolução 3379 pela Assembleia Geral da ONU em 10 de novembro de 1975, que declarava que “o sionismo é uma forma de racismo e discriminação racial”. A resolução foi aprovada com 72 votos a favor, 35 contra e 32 abstenções, refletindo a aliança entre o bloco soviético, os Estados árabes e o Movimento dos Não-Alinhados.
O contexto imediato incluía a Resolução 3236 (1974), que reconhecia a “questão da Palestina”, e a Resolução 3237, que concedia status de observador à OLP após o discurso de Arafat na Assembleia Geral (o “discurso do ramo de oliveira”). O embaixador americano Daniel Patrick Moynihan respondeu ao plenário declarando: “A mentira é que o sionismo é uma forma de racismo.”
A Resolução 3379 foi revogada em 1991 pela Resolução 46/86 (111 votos a favor, 25 contra, 13 abstenções), depois que Israel fez da revogação condição para participar da Conferência de Paz de Madri. Mas o dano semântico já estava feito: durante 16 anos, a ONU chancelou oficialmente a equivalência sionismo-racismo, dando-lhe legitimidade institucional global.
5. O terceiro-mundismo como canal de transmissão
A campanha soviética não operou no vazio: encontrou receptores naturais nos movimentos de libertação nacional do Terceiro Mundo. O enquadramento do conflito israelense-palestino como luta anticolonial — com Israel no papel de potência colonial e os palestinos no papel de povo colonizado — ressoava com a experiência vivida de países africanos, asiáticos e latino-americanos que haviam enfrentado o colonialismo europeu.
O Movimento dos Não-Alinhados (fundado em 1961) tornou-se um veículo institucional dessa transferência. A OLP foi aceita como membro observador; a causa palestina foi incorporada à agenda anticolonial junto com o apartheid sul-africano e as guerras de independência na África. Essa associação — Palestina como “a última colônia” — criou um substrato ideológico duradouro que sobreviveu ao colapso soviético e continua operando na esquerda global.
O canal terceiro-mundista é importante porque introduz uma camada de legitimidade que a propaganda soviética pura não teria: não é mais apenas Moscou dizendo que sionismo é racismo — são movimentos anticoloniais com credenciais morais genuínas (luta contra o apartheid, contra ditaduras militares) adotando o mesmo frame.
6. Durban (2001): a inflexão institucional pós-soviética
A Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, realizada em Durban, África do Sul, de 31 de agosto a 8 de setembro de 2001, deveria ser um marco na luta contra o racismo. Tornou-se, em vez disso, o ponto de convergência organizada entre antissionismo e antissemitismo no mundo pós-soviético.
O Fórum de ONGs que precedeu a conferência emitiu uma declaração descrevendo Israel como “Estado racista e de apartheid” culpado de “crimes racistas incluindo crimes de guerra, atos de genocídio e limpeza étnica”. Nos corredores do fórum, distribuíam-se panfletos com caricaturas antissemitas e um folheto intitulado “E se Hitler tivesse vencido?” que celebrava o Holocausto. Os Estados Unidos e Israel abandonaram a conferência.
Durban é um marco por três razões: (a) transferiu a infraestrutura antissionista do aparato estatal soviético para a rede global de ONGs e movimentos sociais; (b) fundiu o discurso antissionista com o vocabulário de direitos humanos, tornando-o mais palatável para audiências liberais; (c) forneceu a plataforma organizacional para o que viria a ser o movimento BDS.
7. O movimento BDS e o frame do colonialismo de povoamento (2005–)
O Boycott, Divestment and Sanctions (BDS) foi lançado em 2005 por uma coalizão de mais de 170 organizações da sociedade civil palestina. Muitos observadores identificam a Conferência de Durban como antecedente direto. O BDS opera uma segunda camada de ressignificação: não apenas “sionismo = racismo”, mas “sionismo = colonialismo de povoamento” (settler colonialism).
O frame do settler colonialism, desenvolvido no campo dos estudos pós-coloniais (Patrick Wolfe, Lorenzo Veracini), fornece uma moldura acadêmica sofisticada: Israel não seria um Estado nacional comum, mas um projeto de colonização estrutural, cuja lógica — “elimination of the native” — seria análoga à dos EUA, Austrália ou África do Sul do apartheid. Dentro desse enquadramento, o sionismo em qualquer forma (trabalhista, cultural, religioso) é inerentemente colonial, e portanto inerentemente ilegítimo. Não há sionismo aceitável.
Essa totalização é o passo conceitual decisivo para o colapso semântico: se todo sionismo é colonialismo, e todo colonialismo é crime, então não há gradação — o que torna possível a comparação com qualquer outro crime histórico, incluindo o nazismo. O paradoxo de comparar o movimento de autodeterminação de um povo que foi vítima do Holocausto ao regime que perpetrou o Holocausto desaparece dentro da lógica do settler colonialism, porque o enquadramento elimina a história judaica anterior a 1948.
8. A recepção brasileira
O Brasil tem uma relação complexa com a questão Israel-Palestina. Foi o presidente da Assembleia Geral da ONU em 1947 quando o Plano de Partilha foi votado. Manteve relações diplomáticas com Israel desde 1949. Mas a esquerda brasileira — formada na teologia da libertação, no terceiro-mundismo e na solidariedade com movimentos de libertação nacional — sempre gravitou em direção à causa palestina.
8.1. O PT e a OLP
O apoio à Palestina é causa histórica do Partido dos Trabalhadores. Lula, ainda líder sindical nos anos 1980, via a questão palestina como luta entre oprimidos e opressores, e o PT manteve relações formais com a OLP. Lula cultivou relação pessoal com Arafat. Em dezembro de 2010, no fim de seu segundo mandato, o governo Lula reconheceu o Estado da Palestina nas fronteiras de 1967, decisão seguida pela maioria dos países sul-americanos.
Essa posição se inscreve na tradição terceiro-mundista: a Palestina como “a última causa colonial” se encaixava na identidade internacional do PT como partido do Sul Global. Até o terceiro mandato, a posição era pró-palestina mas formalmente não antissionista — reconhecia a existência de Israel e buscava solução de dois Estados.
8.2. A radicalização pós-outubro de 2023
A escalada retórica do terceiro mandato de Lula — culminando na comparação entre a operação israelense em Gaza e o Holocausto (fevereiro de 2024) — representou uma mudança qualitativa. A declaração provocou a expulsão do embaixador brasileiro de Israel e uma crise diplomática inédita. Mais importante para a história semântica: ao vir do presidente da República, a equiparação Israel-nazismo foi institucionalizada no discurso público brasileiro, legitimando o que antes circulava apenas na militância.
No ecossistema da esquerda brasileira (PT, PSOL, MST, movimentos sociais, mídia alternativa), a palavra “sionista” funciona hoje como insulto — um marcador de posição moral, não uma descrição de um movimento político. O processo de ressignificação que começou nos gabinetes da KGB nos anos 1960 completou, no Brasil, seu ciclo completo.
9. Moldura teórica: Ellul e DiResta como chaves de leitura
A genealogia empírica descrita nas seções anteriores ganha profundidade quando lida à luz de dois frameworks teóricos sobre propaganda: a anatomia clássica de Jacques Ellul (Propaganda: The Formation of Men’s Attitudes, 1962) e a análise contemporânea de Renée DiResta (Invisible Rulers: The People Who Turn Lies into Reality, 2024).
9.1. Ellul: pré-propaganda, mito e ortopraxia
Três conceitos de Ellul iluminam diretamente o caso antissionista:
Pré-propaganda e exploração do terreno existente. Ellul demonstra que a propaganda eficaz nunca cria sentimentos do nada — ela se acopla a necessidades, ressentimentos e mitos já presentes na audiência. A campanha soviética contra o sionismo seguiu esse princípio à risca: não inventou a oposição árabe a Israel (que tinha raízes territoriais concretas desde os anos 1920), mas reempacotou essa oposição dentro de um frame ideológico — anticolonialismo, anti-imperialismo, antirracismo — que já tinha força emotiva no Terceiro Mundo. A “sionologia” soviética não precisou convencer os egípcios ou argelinos de que Israel era um problema; precisou apenas fornecer o vocabulário que transformasse uma disputa territorial em causa moral universal.
Ideologia como sistema de palavras-gatilho. Ellul descreve como a propaganda reduz ideologias a “catchwords that trigger learned reactions” — termos que deixam de funcionar como conceitos que exigem reflexão e se tornam estímulos que disparam respostas políticas automáticas. É exatamente o que aconteceu com “sionismo”: o termo foi esvaziado de seu conteúdo programático (autodeterminação judaica, pluralidade de correntes internas) e convertido em palavra-gatilho que dispara automaticamente as associações “racismo”, “colonialismo”, “apartheid”, “nazismo”. Ellul previu esse mecanismo como uma das operações centrais de toda propaganda bem-sucedida: a transformação de um conceito contestável num mito totalizante, dotado de “emotional density, totalizing power, and a more commanding hold over consciousness.”
Ortopraxia: ação antes da crença. Ellul argumenta que a propaganda moderna visa menos a crença correta (orthodoxia) que a ação correta (orthopraxy): o propagandizado age primeiro, e depois reorganiza suas crenças para justificar o que já fez. Aplicado ao caso: a participação em manifestações anti-Israel, o compartilhamento de memes “sionismo = nazismo”, o uso rotineiro de “sionista” como insulto — tudo isso precede e produz a convicção, mais do que resulta dela. Muitos dos que hoje usam “sionista” como equivalente de “nazista” nunca estudaram a história do sionismo; a ação (o uso linguístico, o pertencimento identitário) veio primeiro, e a “teoria” veio depois como racionalização.
9.2. DiResta: agentes de influência, realidades sob medida e a trindade influenciador-algoritmo-multidão
O framework de DiResta explica como a ressignificação do sionismo sobreviveu ao colapso da URSS e se acelerou no século XXI:
Agentes de influência e o legado soviético. DiResta descreve como Estados operam por meio de “agents of influence” — pessoas com credibilidade dentro de uma comunidade-alvo que podem mover essa comunidade em direções úteis ao Estado patrocinador. Os “sionólogos” soviéticos eram exatamente isso: figuras com aparência de credenciais acadêmicas, publicando em editoras respeitáveis, citados por ONGs e governos do Terceiro Mundo. O modelo não morreu com a URSS — foi herdado por redes de ONGs, movimentos sociais e, eventualmente, pelos influenciadores digitais que hoje dominam o discurso sobre Israel-Palestina nas redes.
Bespoke realities e o colapso do consenso. DiResta argumenta que o ecossistema digital produz “realidades sob medida” — ambientes informacionais customizados em que cada facção habita uma versão diferente do real, reforçada por algoritmos e comunidades de crentes. O antissionismo contemporâneo é um caso textbook: dentro da bolha progressista global (e da esquerda brasileira em particular), “sionismo = nazismo” não é uma tese a ser debatida — é um axioma ambiental, tão autoevidente quanto o ar que se respira. Quem questiona é automaticamente classificado como cúmplice. O mecanismo é o mesmo que DiResta documenta para QAnon, anti-vacinas e negacionismo climático: a “realidade sob medida” torna-se impermeável à contra-evidência.
A trindade influenciador-algoritmo-multidão. O BDS e o ativismo anti-Israel pós-2023 operam exatamente segundo a trindade que DiResta descreve: influenciadores (acadêmicos pós-coloniais, ativistas com plataforma, políticos como Lula) articulam o frame; algoritmos de TikTok, Instagram e Twitter/X amplificam o conteúdo mais emocionalmente carregado; e a multidão participa, remixando, memificando e adicionando camadas interpretativas que dão ao frame aparência de consenso orgânico. O resultado é que uma operação de desinformação nascida nos gabinetes da KGB nos anos 1960 hoje se reproduz sem necessidade de patrocínio estatal — ela se tornou auto-sustentável dentro do ecossistema digital.
Propaganda de espectro total (full-spectrum propaganda). DiResta descreve como Estados modernos combinam mídia oficial, diplomacia, personas online cobertas e amplificação paga em múltiplos canais simultaneamente. O caso de Israel-Palestina é talvez o campo mais ativo dessa dinâmica hoje: operações iranianas, russas e chinesas operam ao lado de ativismo orgânico, criando uma situação em que é impossível separar propaganda estatal de indignação genuína. DiResta adverte: atores estrangeiros raramente criam fraturas — eles exploram as que já existem. O conflito real em Gaza fornece o combustível; as operações de influência fornecem a direção e a aceleração.
10. Conclusão analítica: três camadas de ressignificação
A metamorfose semântica do sionismo pode ser decomposta em três operações distintas, cada uma conduzida por atores diferentes e com graus variados de intencionalidade:
Camada 1 — Soviética (1967–1991): a fabricação do frame. Campanha estatal deliberada, conduzida pela KGB e pelo aparato de propaganda do PCUS, para redefinir sionismo como racismo, imperialismo e fascismo. Produziu a infraestrutura intelectual (sionologia), os textos fundacionais, a cobertura institucional (ONU, Não-Alinhados) e o treinamento de quadros (OLP). O produto foi o frame “sionismo = racismo”.
Camada 2 — Terceiro-mundista e acadêmica (1975–2005): a naturalização. O frame soviético foi adotado por movimentos anticoloniais com legitimidade moral própria (luta contra o apartheid, libertações nacionais) e, depois, refinado pela academia pós-colonial (settler colonialism). Isso transformou uma operação de guerra fria em senso comum progressista. O produto foi a equivalência “sionismo = colonialismo”.
Camada 3 — Midiática e ativista (2001–presente): o colapso. Durban, BDS, redes sociais e a escala das operações militares israelenses (particularmente em Gaza) completaram o colapso semântico. O sionismo perdeu qualquer conteúdo descritivo e tornou-se puro significante negativo — um recipiente vazio preenchido com qualquer comparação que o falante deseje. O produto é a equivalência “sionismo = nazismo”, que é a forma terminal da ressignificação porque fecha o circuito de inversão: o movimento nascido da perseguição mais extrema se torna, no discurso, idêntico a essa perseguição.
A ironia final é que esse processo opera exatamente como a “polarização afetiva” descrita pela literatura de Iyengar e Finkel: o conteúdo programático (o que o sionismo efetivamente defende) torna-se irrelevante; o que importa é a carga afetiva e identitária associada ao rótulo. “Sionista” é o “out-group label” perfeito — moralmente contaminado, irresgatável, além de qualquer compromisso. A ressignificação se completa quando discutir o significado original do termo se torna, em si, um ato politicamente suspeito.
Fontes e referências principais:
- Izabella Tabarovsky, “Soviet Anti-Zionism and Contemporary Left Antisemitism” (Fathom Journal)
- Ion Mihai Pacepa & Ronald Rychlak, Disinformation: Former Spy Chief Reveals Secret Strategies for Undermining Freedom, Attacking Religion, and Promoting Terrorism (2013)
- ADL, “Contemporary Anti-Zionism’s Connections to Soviet Propaganda”
- Resolução 3379 da Assembleia Geral da ONU (1975); Resolução 46/86 (1991)
- NGO Monitor, “20 Years of Hijacking Human Rights — The Lasting Impact of Durban”
- CEBRI Journal, “The Brazilian Government of Lula in the Face of the Gaza War” (2024)
- Patrick Wolfe, “Settler Colonialism and the Elimination of the Native” (Journal of Genocide Research, 2006)
- Jacques Ellul, Propaganda: The Formation of Men’s Attitudes (1962) — ver ellul_propaganda_summary
- Renée DiResta, Invisible Rulers: The People Who Turn Lies into Reality (2024) — ver diresta_invisible_rulers_resumo
Ver também
- A Fábrica de Conceitos — Como a Propaganda Transforma Enquadramentos em Convicções — o framework geral de que este ensaio é Caso 1: como enquadramentos fabricados se naturalizam até virar convicções orgânicas, com cinco outros casos comparados
- ellul_propaganda_summary — a pré-propaganda, as palavras-gatilho e a ortopraxia de Ellul são os mecanismos internos que a campanha soviética explorou; o livro fornece a anatomia teórica que ilumina cada etapa documentada aqui
- diresta_invisible_rulers_resumo — a trindade influenciador-algoritmo-multidão explica como o enquadramento soviético sobreviveu ao colapso da URSS e se auto-reproduz no ecossistema digital sem necessidade de patrocínio estatal
- affectivepolarization — “sionista” como out-group label perfeito: a ressignificação completou o ciclo quando o rótulo passou a funcionar como marcador identitário automático, independente de qualquer conteúdo programático — o mecanismo que Iyengar e Finkel documentam empiricamente