PT, uma história, de Celso Rocha de Barros — Resumo
Sinopse
PT, uma história é uma história do Partido dos Trabalhadores como projeto político original — nascido da combinação improvável de sindicalismo autêntico do ABC, catolicismo progressista das CEBs, trotskismo e autonomismo — e como trajetória de governabilização progressiva que culminou no colapso de 2016. Barros insiste em uma dupla tese: o PT foi algo raro e importante na democracia brasileira, uma versão tardia e periférica dos grandes partidos trabalhistas do século XX; e sua derrota foi produto tanto de suas próprias escolhas quanto das pressões estruturais do sistema sobre ele.
O livro percorre de maneira cronológica e densa a história do partido desde os Clubes de Mães e a pastoral operária dos anos 1970 até o impeachment de Dilma e o governo Bolsonaro, passando pelas greves do ABC, a fundação da CUT, a Constituinte de 1988, os governos Lula e as tensões internas em torno da Articulação dos 113, do mensalão e da Lava Jato. O método é história política narrativa com atenção às correntes internas do partido e ao comportamento estratégico de suas lideranças diante de dilemas institucionais concretos. A tese de fundo é que a tensão entre “democratização por baixo” (movimentos, CEBs, sindicatos) e “democratização por cima” (sistema partidário, coalizões, presidencialismo de coalizão) atravessa toda a história do PT e determina seu destino.
Para o vault, o livro é referência direta para a análise do ciclo petista e seu colapso. A discussão sobre as “duas democratizações” — e sobre como o PT era excelente na mobilização social mas frágil na gestão institucional — conecta-se à tese sobre thymos e pertencimento: o PT produziu inclusão econômica mas não infraestrutura de pertencimento duradoura. O capítulo final, que faz Lula e os metalúrgicos de São Bernardo formarem a palavra “Democracia” no chão como imagem de encerramento, condensa a tese central de Barros sobre a relação entre a esquerda trabalhadora e a democracia brasileira.
Capítulo 1 — O lento tricô
Barros abre o livro com a trajetória de Rosalina Santa Cruz para condensar uma mudança histórica maior. Ela sai da prisão depois da derrota da luta armada, torturada, marcada pela repressão e com a certeza de que a guerrilha havia fracassado. O gesto aparentemente modesto de voltar à política pelo tricô, nos Clubes de Mães organizados pela Igreja, vale como imagem do argumento central do capítulo: a esquerda brasileira renasceu menos pela continuidade das organizações clandestinas do que pela reconstrução paciente, capilar e cotidiana de vínculos sociais. O ponto de partida do PT, nesse sentido, não está apenas nas grandes lideranças, mas em uma malha de sociabilidade popular, religiosa, comunitária e associativa que foi se refazendo em silêncio durante a ditadura.
É nesse contexto que o autor localiza a importância decisiva do catolicismo progressista. O Concílio Vaticano II, a valorização dos leigos, a doutrina social da Igreja e a experiência do catolicismo social europeu criam as bases para um deslocamento importante: em vez de disputar os pobres apenas contra o comunismo, uma parte do mundo católico passa a ver a luta dos pobres como parte da própria experiência cristã. Na América Latina, e especialmente no Brasil, isso se radicaliza por causa da desigualdade social extrema. Barros insiste que a base teológica do catolicismo de esquerda não era um enxerto oportunista: ela emergia de elementos reais da tradição cristã. O resultado foi que, no Brasil, a esquerda católica produziu algo que os grupos marxistas, sozinhos, não conseguiram produzir na mesma escala: movimentos sociais de massa, redes de base e formas de organização popular territorializadas.
A derrota da guerrilha aparece, então, não apenas como tragédia, mas como aprendizado. As organizações armadas haviam tentado agir como vanguarda sem retaguarda: não tinham enraizamento suficiente entre os pobres que pretendiam representar. Daí o deslocamento dos ex-militantes para o trabalho de base, muitas vezes dentro do universo católico. O capítulo mostra como isso ocorreu nas Comunidades Eclesiais de Base, na catequese politizada de Irma Passoni, no Movimento do Custo de Vida, nos Clubes de Mães e na recepção do pensamento de Paulo Freire. Barros sublinha que o freirismo, longe da caricatura de “doutrinação”, significava um método e uma filosofia de valorização da experiência dos de baixo, da formação de sujeitos críticos e da recusa da pedagogia hierárquica. Esse universo ajudou a formar um partido socialista, mas visceralmente “basista”, desconfiado de burocracias e convencido de que a libertação popular deveria partir da própria base popular.
O capítulo se alarga, então, para mostrar que o renascimento da sociedade civil brasileira não se limitou ao mundo sindical e católico. Barros acompanha as tensões entre movimentos e organizações de esquerda no feminismo, no movimento homossexual e no movimento negro. O Brasil Mulher e o Nós, Mulheres mostram como ex-guerrilheiras aprenderam lentamente a pensar a opressão de gênero para além da categoria de classe. O Somos mostra tanto o risco de aparelhamento por grupos de esquerda quanto a vantagem de ter organizações capazes de articular lutas diferentes. O Movimento Negro Unificado aparece como herdeiro de uma longa tradição antirracista e, ao mesmo tempo, como produto novo da redemocratização, articulado com a juventude negra universitária e com a esquerda trotskista. A conclusão do capítulo é decisiva: o PT nasce de uma sociedade civil reconstruída “por baixo”, sob forte influência da Igreja progressista e de novos movimentos, e herda, desde a origem, a ideia de ser uma “confederação de movimentos” democrática, participativa e antiburocrática.
Capítulo 2 — A república de São Bernardo
O segundo capítulo desloca o foco da sociedade civil ampla para o núcleo operário que transformaria o PT em algo mais do que uma aliança difusa de movimentos. Barros reconstrói a greve da Saab-Scania, em maio de 1978, como o momento fundador da “república de São Bernardo”. A paralisação é apresentada como espontânea apenas em parte: não foi simplesmente ordenada de cima, mas também não caiu do céu. Lula e seu grupo haviam preparado o terreno, sinalizado disposição grevista e aprendido a jogar no limite da legalidade para evitar que a ditadura interviesse antes da hora. O que estava em curso não era só uma reivindicação salarial. Era um teste da abertura “lenta, gradual e segura” de Geisel e, ao mesmo tempo, a volta da classe trabalhadora industrial ao centro da política brasileira.
Barros insere essa explosão sindical em duas histórias mais longas. A primeira é a do sistema sindical herdado do varguismo, com sua mistura de proteção estatal, controle burocrático e possibilidade permanente de intervenção governamental. O novo sindicalismo do ABC se rebelava não apenas contra a ditadura, mas também contra a forma corporativa anterior de organizar trabalhadores. A segunda história é a da industrialização brasileira. O autor insiste que todas as grandes correntes do século XX brasileiro, da direita liberal ao nacional-desenvolvimentismo e ao comunismo, convergiam numa aposta: o desenvolvimento exigia urbanização e industrialização. O ABC é filho desse processo. Mas, justamente quando esse modelo de substituição de importações começava a dar sinais de esgotamento, o operariado industrial emergia como ator político autônomo.
Uma das contribuições mais importantes do capítulo é mostrar por que as previsões clássicas sobre esse operariado falharam. Muitos estudiosos imaginaram que os metalúrgicos do ABC tenderiam a um “sindicalismo de negócios”, voltado para ganhos econômicos imediatos e pouco propenso à politização mais ampla. Barros mostra que isso subestimava três fatores: a experiência autoritária dentro das fábricas, a precariedade relativa da vida operária mesmo no setor moderno e a centralidade da luta democrática. O novo sindicalismo lutava por salário e autonomia, mas também por reconhecimento político. As greves se espalham, a imprensa se entusiasma, parte da elite vê em Lula um sindicalista “casto” ideologicamente, até maduro demais para ser de esquerda. Barros desmonta essa leitura: a suposta castidade ideológica era, em grande medida, cautela diante da repressão e estratégia para manter a liderança do processo nas mãos dos sindicalistas.
O capítulo termina mostrando como essa experiência operária vai se articular com outros mundos. O novo sindicalismo tinha heranças comunistas, vínculos táticos com grupos de esquerda, apoio crucial da Igreja — especialmente da Pastoral Operária e de dom Cláudio Hummes — e crescente solidariedade internacional da social-democracia europeia. A prisão de Lula em 1980 sela a passagem definitiva da luta sindical à luta política nacional. Daí a tese forte de Barros: a história do PT deve ser entendida como parte da tradição global dos partidos operários de massa, sobretudo da família social-democrata, mas em versão tardia e periférica. O partido brasileiro seria, ao mesmo tempo, clássico em sua base social — sindicatos e trabalhadores — e singular em sua data de nascimento, sua matriz ideológica híbrida e seu contexto de capitalismo dependente e democracia recém-reconstruída.
Capítulo 3 — Os PTs possíveis
Barros dedica o terceiro capítulo a reconstruir o momento em que vários partidos possíveis disputavam o nome, o sentido e a direção do que viria a ser o PT. O argumento central é que o partido não nasceu inevitavelmente da forma como o conhecemos. Havia, ao mesmo tempo, um trabalhismo mais “oficial”, ligado a setores da máquina sindical e a figuras como Maluly Neto e Joaquinzão; havia o projeto trotskista da Convergência Socialista, que queria um partido socialista amplo em que pudesse atuar organizadamente; havia o projeto de um Partido Popular, defendido por Almino Afonso, Fernando Henrique Cardoso e outros intelectuais e políticos de centro-esquerda; e havia a intuição de Lula e do grupo de São Bernardo de que o novo partido deveria ser liderado pelos trabalhadores e não subordinado ao MDB ou a velhas lideranças personalistas.
Os trotskistas têm, no capítulo, um papel maior do que seu tamanho sugeriria. Foram eles que ajudaram a formular propostas, empurraram o debate e contribuíram para fixar a própria expressão “Partido dos Trabalhadores”, ainda que Barros faça questão de dizer que Fernando Henrique exagera ao atribuir a eles toda a ideia. Também Almino Afonso aparece como personagem central, defendendo um partido democrático, socialista, plural, atento a mulheres e negros, e não mero apêndice sindical. Mas a disputa decisiva se dá em torno da liderança. Lula quer um partido que represente trabalhadores e, progressivamente, “o povo”, mas quer também que o controle não escape das mãos do novo sindicalismo. O encontro do Hotel Pampas, em 1979, mostra o impasse: o grupo de São Bernardo não aceita entregar a direção do processo a políticos mais experientes, e os setores oriundos do MDB dificilmente aceitariam entrar num partido comandado por sindicalistas recém-chegados.
O capítulo também responde a uma pergunta recorrente: por que a ditadura permitiu a formação do PT, enquanto mantinha tantas restrições aos partidos comunistas e socialistas? Barros rejeita a versão conspiratória simples segundo a qual o PT teria sido inventado por Golbery ou pela CIA para dividir a esquerda. Ele admite que, do ponto de vista do regime, podia ser útil que sindicatos e católicos progressistas fossem atraídos para uma legenda não ligada à geopolítica comunista. Mas a explicação principal é mais banal e mais forte: o PT era muito fraco. Não tinha dinheiro, não tinha máquina, não governava cidades, tinha poucos parlamentares e reunia setores que, aos olhos da ditadura, não representavam ameaça comparável à de uma organização internacionalizada como o PCB. Sua fraqueza era parte da razão de sua tolerância.
Ao final, Barros insiste no caráter improvável da sobrevivência petista. Em seus primeiros anos, tudo conspirava contra o partido: o PMDB era a grande força da oposição institucional, o PDT de Brizola parecia a aposta mais promissora para liderar a esquerda, o PCB mantinha influência importante em sindicatos e movimentos, e vários setores sociais progressistas não aderiram de imediato ao PT. O partido tinha tudo para minguar ou virar legenda sectária de poucos pontos percentuais. Só não aconteceu porque a transição democrática brasileira foi turbulenta, cheia de crises e insuficiências. Foi esse ambiente instável, e não qualquer inevitabilidade histórica, que abriu espaço para que um partido inicialmente precário se consolidasse.
Capítulo 4 — As duas democratizações
O quarto capítulo organiza a narrativa em torno de uma oposição poderosa: a democratização “por cima”, conduzida pelo sistema político institucional, e a democratização “por baixo”, impulsionada pela sociedade civil e pelos movimentos sociais. A estreia eleitoral do PT, em 1982, mostra a fraqueza do partido no terreno institucional. A campanha era entusiasmada, a militância ocupava as ruas e a novidade democrática parecia carregá-lo, mas o resultado foi uma derrota dura: poucos eleitos, desempenho fraco fora de São Paulo e prova de que entusiasmo social não bastava para competir com máquinas partidárias muito mais consolidadas. Ao mesmo tempo, a crise econômica brutal do início dos anos 1980 desmobilizava trabalhadores, derrubava o poder de barganha sindical e impunha um ambiente dificílimo para um partido ainda recém-nascido.
Nesse quadro, Barros destaca a criação da CUT como um dos movimentos decisivos da década. A tentativa inicial era construir uma central sindical que reunisse autênticos, comunistas, moderados e setores próximos ao PMDB. Isso fracassa. O Bloco Combativo, basicamente petista, rompe com a Unidade Sindical, em que conviviam comunistas e lideranças mais cautelosas, e cria a CUT em 1983. A central nasce independente, radicalizada, hostil à subordinação a partidos e ao Estado e, ao menos no plano simbólico, disposta a defender greve geral, ruptura com o FMI e até socialismo. Mais do que capacidade real de impor esse programa, essas bandeiras sinalizavam combatividade e autonomia. A CUT, assim, consolidava o braço sindical do campo petista enquanto a frente partidária mais ampla da redemocratização se fragmentava.
A primeira experiência petista de governo, em Diadema, revela o outro problema central do capítulo: o PT sabia mobilizar, mas não sabia ainda governar. O partido falava em conselhos populares, participação e prioridades dos pobres, mas não tinha programa de governo maduro nem formulação consistente sobre a relação entre administração eleita, partido e movimentos sociais. Em Diadema, a participação popular era difícil de organizar; a cidade não possuía tradição associativa robusta anterior; houve problemas com ocupações, pressões da própria militância e conflitos entre a lógica do movimento e a lógica da gestão. Barros resume isso dizendo que o PT era ainda “movimentista”: excelente em apresentar demandas ao Estado, frágil para agregá-las e governar em nome do conjunto da cidade.
Na democratização “por baixo”, porém, o partido brilhava. Nas Diretas Já, o PT atuou com vigor, ajudou a empurrar a oposição para a rua e se saiu melhor do que na política de bastidor. Quando a emenda Dante foi derrotada e a transição voltou ao terreno “por cima”, o partido errou: continuou apostando em comícios esvaziados, absteve-se no Colégio Eleitoral, expulsou parlamentares que votaram em Tancredo e acabou passando a impressão de que fazia oposição à própria transição democrática. Mesmo assim, a expansão petista prosseguiu no contato com novos movimentos — ambientalistas, negros, feministas — e nas experiências municipais de 1985, inclusive Fortaleza, cuja gestão de Maria Luiza Fontenele reforçou a imagem de honestidade petista, mas também a de voluntarismo e caos administrativo. A síntese do capítulo é clara: quando a disputa era institucional e “por cima”, o PT apanhava; quando a disputa era social, participativa e “por baixo”, ele crescia.
Capítulo 5 — Quantas camisas? Qual camisa?
O quinto capítulo examina o problema ideológico central do PT em sua formação: o partido nascia sem filosofia oficial, orgulhosamente “laico” em matéria doutrinária, mas reunia em seu interior sindicalistas pragmáticos, católicos progressistas, ex-guerrilheiros, leninistas, trotskistas, autonomistas e intelectuais vindos de tradições muito diferentes. O ponto de partida do autor é que o PT não foi um partido marxista no sentido clássico, como os velhos partidos comunistas, mas tampouco foi um partido sem conflito ideológico. Ao contrário: a sua originalidade estava justamente em ter surgido quando o marxismo ortodoxo já passava por forte crise internacional, o que impedia a cristalização de uma ortodoxia única. Por isso, desde o início, o partido carregou uma tensão entre a recusa ao “socialismo real” e a recusa também a se definir simplesmente como social-democrata.
Essa tensão aparece na imagem das “camisas” que dá título ao capítulo. Para muitos militantes oriundos de organizações clandestinas, a camisa do PT era uma cobertura externa: por baixo dela permanecia a camisa verdadeira, a de sua corrente de origem. Daí o debate decisivo entre um PT “tático” e um PT “estratégico”. Se o partido fosse apenas um instrumento provisório, valeria como espaço de acúmulo, recrutamento e presença pública, mas as grandes decisões continuariam pertencendo às organizações de vanguarda. Se, ao contrário, o PT fosse estratégico, então sua vida interna, seu programa, suas disputas eleitorais e sua relação com a democracia deveriam ser levados a sério como fins em si, e não como mera etapa de outra coisa. O autor mostra como Lula, pouco interessado em sutilezas doutrinárias, intuía o ponto essencial: um partido que pretende existir de verdade não pode ser tratado por seus próprios quadros como fachada.
O capítulo então percorre as principais correntes que disputavam a alma petista. Há os grupos mais próximos do leninismo, que ainda pensavam a política a partir da lógica da vanguarda organizada. Há correntes que buscavam adaptar essa herança, como o PRC, tentando combinar disciplina revolucionária com abertura democrática. Há os trotskistas, que traziam consigo a tradição do “entrismo” e a experiência histórica de atuar dentro de partidos maiores, apostando que o PT poderia ser o partido de massas da esquerda brasileira. Há também os autonomistas, fortemente influenciados pela crítica libertária de 1968, por Rosa Luxemburgo e por autores ligados ao grupo Socialismo ou Barbárie; neles, o centro da política não é o partido disciplinador, mas a autonomia dos movimentos, a espontaneidade organizada, a democracia de base e a desconfiança permanente diante da burocracia. E há, por fim, intelectuais como Francisco Weffort e José Álvaro Moisés, que recorrem a Gramsci para defender uma estratégia socialista fundada na ampliação da democracia, e não em sua suspensão.
Nesse universo, a Revolução Sandinista aparece como uma espécie de espelho possível para o PT. A Nicarágua, para muitos petistas, parecia ter conseguido combinar aquilo que no Brasil surgia disperso: esquerda católica, mobilização popular, luta armada vitoriosa, pluralismo e promessa de socialismo democrático. O entusiasmo petista com os sandinistas vinha da sensação de que ali se ensaiava uma “revolução com habeas corpus”, distinta do modelo soviético ou cubano. O autor observa, porém, que esse entusiasmo era em parte idealizado. Ainda assim, a referência sandinista ajudava a mostrar que, para o PT, o problema já não era repetir 1917, mas imaginar um caminho novo em que democracia e transformação social pudessem coexistir. A mesma função cumpria Gramsci: não como abandono do socialismo, mas como tentativa de pensar a luta pelo poder como construção lenta de hegemonia na sociedade civil e nas instituições democráticas.
A virada decisiva do capítulo é a fundação da Articulação dos 113, em 1983. Ela surge como resposta simultânea a duas ameaças: de um lado, a ideia de dissolver o PT em frentes mais amplas, como o PMDB ou o PDT; de outro, o risco de o partido se tornar apenas um terreno de manobra para tendências organizadas, sobretudo as correntes marxistas mais disciplinadas. A Articulação se apresenta como a tendência “antitendência”, dos “petistas petistas”, e seu manifesto define o PT como “partido de massas, de lutas e democrático”. O autor sustenta que esse foi o grande momento de reorganização interna do partido: a partir dali, o PT começou a adquirir coluna vertebral própria. A Articulação não resolveu por decreto a questão doutrinária — e talvez sua força tenha sido justamente evitar essa fixação prematura —, mas resolveu a questão prática do comando. Ao consolidar o peso dos sindicalistas, dos católicos progressistas e dos quadros que haviam aceitado dissolver suas organizações no partido, ela empurrou o PT para uma forma de funcionamento cada vez mais partidária e menos frentista, preparando o caminho para a sua futura moderação.
Capítulo 6 — O caramujo
O sexto capítulo trata da Assembleia Constituinte de 1987-88 como o momento em que o PT foi obrigado a se medir com a institucionalidade democrática concreta. A cena de abertura já fixa o tom: José Genoino protesta na instalação da Constituinte porque a sessão é presidida por Carlos Moreira Alves, ministro do STF nomeado pela ditadura. O gesto remete aos comunistas de 1946, que se recusavam a começar uma nova ordem sob tutela do velho regime. Essa comparação permite ao autor mostrar a ambiguidade da situação de 1987: a democracia estava voltando, mas ainda carregava marcas fortes da ordem autoritária. A Constituinte, portanto, não era apenas o nascimento de uma nova legalidade; era também o campo de disputa sobre o quanto da ditadura permaneceria inscrito na democracia nascente.
O capítulo reconstitui então o contexto político da Constituinte. A eleição de 1986, impulsionada pelo sucesso inicial do Plano Cruzado, deu ao PMDB uma vitória avassaladora e fez do partido o grande organizador da transição. Foi esse poder desmedido, mais do que qualquer virtude programática, que lhe permitiu controlar o processo. O PT entrou na Constituinte com bancada pequena e vindo de um momento ruim, mas com uma proposta própria de reorganização do país. O autor destaca o projeto de Constituição elaborado por Fábio Konder Comparato, no qual apareciam com clareza as ambições transformadoras do partido: limites fortes ao poder econômico privado, ataque à concentração dos meios de comunicação, instrumentos agressivos de reforma agrária e um papel central para o Estado na promoção do desenvolvimento. Era, em muitos aspectos, um projeto de refundação mais profunda do que aquilo que o texto final permitiria.
Mas o argumento mais importante do capítulo é que a Constituição de 1988 não foi apenas obra das cúpulas partidárias. Ela se tornou o “caramujo” de Ulysses Guimarães porque guardou o barulho das reivindicações sociais acumuladas desde a abertura. O autor mostra isso em especial em três frentes. A primeira é a pauta antirracista: ainda que a Constituinte não tenha consagrado mecanismos explícitos de ação afirmativa, abriu espaço decisivo ao criminalizar o racismo e ao inscrever a igualdade material como problema político. A segunda é a saúde, talvez a grande vitória substantiva da esquerda no processo, com a criação do SUS a partir da força do movimento sanitarista e da 8ª Conferência Nacional de Saúde. A terceira é o fortalecimento do Ministério Público, concebido como instituição autônoma capaz de agir em defesa da sociedade e dos direitos coletivos. Em todos esses casos, a esquerda só vence porque não atua sozinha: alia-se a setores progressistas do PMDB e traduz para dentro da Constituinte pressões já organizadas na sociedade.
Ao mesmo tempo, o texto insiste em que a ofensiva progressista encontrou limites muito claros. A esquerda agiu de maneira relativamente coordenada, mas era minoria. O avanço inicial, facilitado por manobras regimentais e pela influência de Mário Covas sobre a distribuição das relatorias, provocou uma reação conservadora que desembocou na formação do Centrão. O autor enfatiza que essa reação não foi um acidente externo, mas parte normal da luta política em uma assembleia cujo centro ideológico ainda estava longe do socialismo petista. O Centrão conseguiu bloquear muitas propostas da esquerda e preservar travas importantes, sobretudo na defesa da propriedade e em dispositivos institucionais mais favoráveis às forças conservadoras. Não foi capaz, porém, de impor uma Constituição liberal clássica: a Carta de 1988 permaneceu marcada por direitos sociais amplos, nacional-desenvolvimentismo e uma forte valorização do papel do Estado.
A decisão final do PT de votar contra o texto constitucional é o fecho crítico do capítulo. O autor enumera as razões centrais do partido: a proteção ao direito de propriedade, a distorção federativa da representação parlamentar — que sub-representava os estados maiores, onde o PT era mais forte — e, sobretudo, a preservação do papel das Forças Armadas na ordem interna. O livro reconhece que essas objeções não eram absurdas; em retrospecto, especialmente quanto ao artigo 142, havia ali um problema real. Ainda assim, a avaliação é dura: votar contra foi um erro político de primeira grandeza. O PT poderia ter registrado seu desacordo por voto em separado, como fizeram liberais inconformados com o caráter estatista da Carta. Ao escolher o “não”, porém, deu munição à acusação de que recusava justamente o pacto que simbolizava a volta da democracia. Foi uma escolha de pureza que custaria caro depois, ainda mais porque, nos anos seguintes, o partido acabaria atuando muito mais na defesa do espírito social-democrata da Constituição do que na sua superação socialista.
Capítulo 7 — 1989
O sétimo capítulo descreve a eleição presidencial de 1989 como o instante em que o PT deixa de ser apenas uma força ascendente da sociedade civil e se transforma em alternativa real de poder. O pano de fundo é a decomposição acelerada da Nova República sob José Sarney. O fracasso do Plano Cruzado, a volta da inflação em ritmo devastador, o desgaste moral do PMDB e a sensação de descontrole geral corroíam o pacto que havia conduzido a transição. O autor mostra que, nesse ambiente, a esquerda já não tinha o monopólio do discurso da mudança. Ao contrário: Fernando Collor conseguiu capturar para si a bandeira da renovação, deslocando o eixo do protesto contra Sarney da questão social para a agenda da corrupção, da modernização administrativa e, mais adiante, da privatização. Enquanto isso, o PT ainda carregava o peso de administrações municipais heterogêneas, em especial a de Luiza Erundina em São Paulo, respeitada depois, mas então incapaz de oferecer a Lula uma vitrine simples e poderosa de transformação imediata.
Por isso, a campanha de Lula começa sem grande confiança interna. O próprio partido não acreditava, no início de 1989, que pudesse vencer. A candidatura tinha uma função quase pedagógica: apresentar uma esquerda forte e nacional na primeira eleição presidencial direta em trinta anos. A Frente Brasil Popular, reunindo PT, PSB, PCdoB e PV, mostrava ampliação, mas também deixava claro o isolamento relativo do partido. O PCB lançou Roberto Freire; o PDT de Brizola permaneceu como concorrente direto pela hegemonia da esquerda; e o PSDB ficava como aliado eventual de segundo turno, não como parceiro orgânico. O autor sublinha que as forças reunidas em torno de Lula tinham fortes “semelhanças de família” com o PT, mas também trajetórias próprias e, em muitos casos, rivalidades acumuladas nos movimentos sociais. A campanha, portanto, precisava ao mesmo tempo agregar e afirmar a primazia petista.
É nesse quadro que a disputa com Leonel Brizola adquire peso histórico. O capítulo mostra que a ultrapassagem do trabalhismo pelo petismo esteve longe de ser inevitável. Brizola quase foi ao segundo turno e perdeu por margem mínima. Mas sua fraqueza estrutural ficava evidente: o PDT permanecia fortemente enraizado apenas nos estados da tradição varguista, sobretudo Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Faltava-lhe o que Vivaldo Barbosa resume de forma cruel: “um partido”. O PT, ainda desorganizado sob vários aspectos, já conseguira construir uma malha nacional mínima, assentada em sindicatos, movimentos, pastorais, núcleos e militância. Essa diferença apareceu com clareza em São Paulo e Minas Gerais. Brizola não conseguiu penetrar onde o velho trabalhismo fora fraco e onde o espaço deixado por Vargas acabara sendo ocupado pela nova esquerda petista. Ao derrotá-lo, Lula não apenas passou ao segundo turno: colocou em marcha a troca de hegemonia dentro da esquerda brasileira.
O capítulo ganha profundidade adicional ao situar essa eleição sob o signo da queda do Muro de Berlim. O choque de 1989, para o PT, não foi o mesmo que para o PCB, porque o partido nunca se identificara plenamente com Moscou nem com o marxismo oficial. Ainda assim, o abalo foi real. O problema não era apenas a falência de regimes distantes, mas o fato de que o socialismo real ruía por suas próprias contradições, e ruía sob pressão de movimentos populares de massa, justamente o tipo de sujeito histórico que o PT idealizava. A perestroika fracassava; a possibilidade de reformar o socialismo por dentro se dissolvia; e isso atingia em cheio a noção petista de “socialismo democrático”, mesmo que muitos militantes ainda não percebessem de imediato toda a extensão da mudança. O partido poderia até se diferenciar da União Soviética com relativo conforto, mas já não podia fingir que a implosão do Leste Europeu não alterava o horizonte histórico em que a esquerda pensava a si mesma.
Depois do primeiro turno, o entusiasmo petista foi gigantesco. Lula estava a um passo da Presidência, com uma campanha barata, militante, emocionalmente poderosa e capaz de falar ao país inteiro. Mas é aí que, segundo o autor, aparece o grande erro estratégico do PT. Na negociação do segundo turno, o partido buscou Brizola, PSDB, PCB e PV, mas não telefonou para Ulysses Guimarães, apesar do recado de que o apoio do líder peemedebista seria dado se fosse pedido. O livro sustenta que esse gesto talvez tivesse decidido a eleição: Ulysses teria funcionado como fiador institucional, moderando o temor que amplos setores tinham do radicalismo petista. Sem isso, a campanha de Collor mudou de natureza, abandonou a pose modernizadora e recorreu ao velho arsenal da direita brasileira: medo social, manipulação midiática, exploração moralista da vida pessoal de Lula e acusações falsas sobre a poupança. A derrota foi devastadora, mas também pedagógica. Ela ensinou ao PT que a vitória presidencial era possível e que, dali em diante, seria preciso pensar como governo, não apenas como movimento. Ao mesmo tempo, a mudança de época tornava essa travessia ainda mais difícil: quando o PT começou a mover-se rumo ao centro, esse centro já estava correndo para a direita sob o impacto do neoliberalismo global.
Capítulo 8 — O centro sem Estado
Neste capítulo, Barros acompanha o choque entre a crise do socialismo real, a ascensão do liberalismo dos anos 1990 e a tentativa petista de redefinir seu lugar num mundo em que o Estado desenvolvimentista parecia esgotado. O governo Collor aparece como primeira experiência brasileira de superação liberal da crise do capitalismo nacional: abertura comercial, privatizações, integração cosmopolita e abandono parcial do modelo estatal de industrialização. O título do capítulo resume o dilema: o PT precisava se mover para o centro, mas esse centro já não era o centro social-democrata clássico; era um centro em que o Estado havia perdido prestígio e o mercado aparecia como solução quase natural.
Barros mostra que o partido reage em várias frentes ao mesmo tempo. De um lado, entra no debate internacional sobre a falência do socialismo burocrático e tenta formular um socialismo democrático próprio. O 7º Encontro Nacional de 1990 e o texto “O socialismo petista” são marcos desse processo. De outro, começa a produzir inovações concretas em governos locais e no plano programático. O capítulo destaca especialmente o Orçamento Participativo e o Bolsa Escola como tentativas de construir um novo repertório de esquerda: menos dependente da estatização clássica e mais ancorado em participação, cidadania e redistribuição focalizada.
Outro eixo importante são as câmaras setoriais, em especial no ABC, que aparecem como ensaio de uma concertação entre capital, trabalho e Estado. Barros as trata como a aproximação possível, em chave brasileira, de um imaginário social-democrata corporativo. Mas o timing histórico é cruel: quando São Bernardo tenta chegar à social-democracia, ela já está em crise. O capital já não teme o operariado organizado como antes, a desindustrialização começa a corroer a base material de um partido operário clássico e o país se move para um padrão de inserção global muito menos amigável à negociação social estruturada.
O capítulo termina numa chave equilibrada. O começo dos anos 1990 não foi só derrota e perplexidade. O PT perdeu referências antigas, mas ganhou clareza sobre a necessidade de buscar os excluídos, inovou em políticas públicas, participou decisivamente do impeachment de Collor e produziu reflexão de boa qualidade sobre o esgotamento do socialismo real. Ainda assim, a tarefa continuava quase insolúvel: construir uma esquerda democrática e popular quando a globalização estava desorganizando justamente os grupos sociais que, em outras partes do mundo, haviam dado origem aos partidos do trabalho.
Capítulo 9 — PT versus PSDB
O nono capítulo narra a formação do eixo que dominaria a política brasileira por vinte anos: PT versus PSDB. Barros parte do governo Itamar Franco e da nomeação de Fernando Henrique Cardoso para a Fazenda, mostrando como o sucesso do Plano Real reordena o sistema partidário e pega o PT desprevenido. Até então, parecia plausível que o partido pudesse disputar o centro reformista contra forças em decomposição. Com o Real, surge um competidor de centro com credenciais intelectuais, administrativas e social-democratas, ainda que logo deslocado para uma agenda liberalizante. O PSDB, nascido da dissidência progressista do PMDB, ocupa o espaço do reformismo viável.
Ao mesmo tempo, o PT vive forte turbulência interna. O capítulo descreve o período 1993-95 como um dos mais confusos da história partidária, com a esquerda interna assumindo maior controle por um momento, o racha na Articulação, o aparecimento de revistas e manifestos pedindo revisão programática e a tensão entre a herança movimentista e a necessidade de adaptação ao novo ambiente. O encontro de Guarapari, a vitória apertada de José Dirceu e a saída amarga de César Benjamin ilustram esse momento em que o partido parece não saber ainda se quer ser força de governo ou guardião de uma superioridade moral derrotada.
Barros insiste, porém, que a polarização PT/PSDB teve efeitos civilizatórios importantes. Ela organizou a competição democrática brasileira em torno de dois polos reconhecíveis: de um lado, um partido mais identificado com integração à globalização, estabilização monetária e reforma liberal do Estado; de outro, um partido ligado ao trabalho, à redistribuição e à crítica dos custos sociais dessa transformação. Durante duas décadas, isso fez com que os “perdedores da globalização” no Brasil tivessem representação institucional forte, em vez de precisarem recorrer diretamente ao populismo antissistema. O autor considera esse um mérito importante da democracia brasileira entre 1994 e 2014.
Mas Barros também observa que o PSDB nunca encontrou uma relação estável com a própria globalização que ajudou a promover, e o PT tampouco conseguiu formular uma alternativa completamente consistente ao novo padrão econômico. O capítulo, assim, não apresenta a clivagem PT/PSDB como um confronto entre virtude e erro, mas como uma forma relativamente produtiva de organizar um país que saía da hiperinflação e entrava num mundo hostil à velha esquerda.
Capítulo 10 — A profissionalização
O décimo capítulo acompanha a transformação do PT em máquina eleitoral e alternativa real de poder. A profissionalização é narrada como processo necessário, mas ambíguo. Depois de 1994, o partido entende que já não basta denunciar o neoliberalismo nem contar com o carisma de Lula. Era preciso aprender a disputar hegemonia num sistema caro, midiático, presidencialista e profundamente dependente de coalizões. Barros mostra que esse aprendizado passa por várias dimensões: mais centralização, maior disciplina estratégica, novas formas de financiamento, contratação de marketing, elaboração programática mais palatável e ampliação de alianças.
José Dirceu é a figura organizadora desse processo. O autor o trata como alguém que deu ao PT uma capacidade de agir como partido grande, costurando tendências, construindo maioria interna e empurrando a legenda para decisões menos confessionais e mais estratégicas. A profissionalização não significou simples abandono de princípios; significou reconhecer as regras concretas da democracia brasileira. O capítulo mostra também as derrotas de 1998, o debate sobre alianças com Brizola, a incorporação mais aberta de uma retórica nacional-desenvolvimentista e o esforço para não repetir o isolamento que marcara momentos anteriores da trajetória petista.
A virada decisiva vem em 2002. A morte de Celso Daniel, a ascensão de Antonio Palocci à coordenação programática e o jantar em Ribeirão Preto que leva à ideia da Carta ao povo brasileiro são tratados por Barros como momentos centrais. A carta não é apenas gesto tático; ela antecipa o desenho básico do futuro governo: respeito a contratos, responsabilidade macroeconômica, gradualismo e compromisso com distribuição de renda dentro da ordem democrática. O autor insiste que, por mais que parte da esquerda tenha visto a carta como capitulação, ela permitiu a Lula vencer sem cometer estelionato eleitoral: o governo faria, em linhas gerais, o que o documento anunciava.
O preço dessa profissionalização, contudo, já aparece no final do capítulo. Para disputar o poder na Nova República, o PT entra de modo mais profundo nas regras informais do sistema — inclusive nas práticas de financiamento político e nas rotinas de relação com aliados que depois explodiriam nos escândalos de corrupção. Barros não trata isso como mera traição moral individual. Seu argumento é mais estrutural: um partido que decide disputar de fato o governo federal num sistema desse tipo é empurrado para formas de adaptação que podem corroer sua singularidade. A vitória de 2002 nasce desse aprendizado — e já carrega o germe de seus problemas futuros.
Capítulo 11 — A social-democracia petista
O capítulo 11 descreve o primeiro governo Lula como realização parcial, brasileira e tardia de uma social-democracia petista. Barros começa sublinhando a dimensão histórica de 2002: pela primeira vez, a esquerda brasileira ganha a presidência e a transferência de poder entre direita e esquerda ocorre de forma pacífica. Isso, por si só, já seria um marco democrático. Mas o autor quer ir além do simbolismo. Ele mostra como o primeiro governo Lula combina continuidade macroeconômica, prudência institucional e um conjunto de políticas redistributivas que mudam materialmente a vida dos mais pobres.
A sustentação econômica do governo é atribuída, em grande parte, à condução de Antonio Palocci e Henrique Meirelles. Barros argumenta que a escolha por preservar pilares do arranjo macroeconômico anterior foi fundamental para garantir credibilidade num contexto em que a esquerda chegava ao poder carregando forte desconfiança dos mercados, da elite econômica e de parte da imprensa. Ao mesmo tempo, Lula usa esse espaço de estabilidade para realizar mudanças do lado da distribuição e da inclusão. A reforma da Previdência, por exemplo, aparece como gesto relevante de enfrentamento de privilégios de setores da classe média estatal, apesar do alto custo dentro do próprio PT.
No plano social, o capítulo trata o Bolsa Família como a síntese mais bem-sucedida do período, embora lembre que ele nasce de debates anteriores e convive com outras políticas de grande impacto: valorização real do salário mínimo, expansão do crédito, formalização do emprego, políticas afirmativas e crescimento econômico favorecido também pelo cenário internacional. Barros enfatiza que os ganhos da década são massivos e desigualmente distribuídos a favor dos de baixo. Negros, nordestinos, analfabetos, periféricos e trabalhadores pobres avançam mais do que grupos historicamente mais protegidos. É o momento em que parte expressiva do que o PT dizia querer representar desde a fundação finalmente melhora de vida.
Mas a realização social-democrata petista tem limite e contradição. O governo opera dentro de um sistema político herdado da transição, no qual campanhas custam caro, o presidencialismo exige coalizões extensas e as velhas máquinas partidárias negociam apoio em bases pouco transparentes. O capítulo termina justamente lembrando isso: a vitória do PT não altera imediatamente a lógica estrutural do sistema; ela entra nela. O partido consegue fazer políticas distributivas amplas e bem-sucedidas, mas o faz sem reformar o terreno institucional em que governa. Essa tensão explodirá logo adiante.
Capítulo 12 — Comandando o atraso
O capítulo 12 entra no terreno do Mensalão e das contradições do PT no poder. O ponto de partida é Roberto Jefferson, personagem que Barros usa como chave para compreender o “Centrão” e o modo real de funcionamento da política brasileira. Jefferson não aparece apenas como denunciante; aparece como expressão típica de uma engrenagem em que partidos médios negociam apoio parlamentar, cargos e acesso a recursos. O autor é cuidadoso ao distinguir o que está em jogo: não se trata só do “mensalão” como pagamento regular a deputados, mas de um sistema mais amplo de caixa dois, financiamento ilegal e cooptação política num ambiente em que quase todos os grandes partidos praticavam formas semelhantes de ilegalidade.
A força do capítulo está em mostrar a contradição central do governo Lula: ao mesmo tempo em que setores do governo e juristas próximos do PT fortaleciam instituições de controle, autonomia do Ministério Público, Polícia Federal e práticas mais independentes na escolha do procurador-geral, a articulação política operava com lógicas tradicionais de captura e compra de apoio. Barros não resolve essa contradição com psicologia moral fácil. Ele insiste que diferentes grupos dentro do governo faziam coisas diferentes, às vezes incompatíveis, e que a reforma política que poderia reduzir a tensão nunca saiu do papel. O resultado foi explosivo: o partido que nos anos 1990 encarnara a crítica moral do sistema perde definitivamente essa superioridade.
Ao mesmo tempo, o autor se recusa a reduzir o período à corrupção. Ele lembra que o governo continuou produzindo políticas públicas importantes, consolidou o Bolsa Família, preservou a estabilização e preparou as condições para o crescimento dos anos seguintes. A atuação de Palocci é reavaliada nesse contexto como decisiva para assentar credibilidade e organizar a casa, ainda que o ministro acabe derrubado por escândalos próprios. Já José Dirceu, responsável por montar maioria num sistema partidário desagregado, recebe tratamento menos moralista e mais estrutural: sua tarefa era provavelmente a mais difícil do governo, porque implicava negociar com forças formadas no velho padrão fisiológico da Nova República.
A conclusão do capítulo é amarga. O PT tentou governar com ambição redistributiva e, em alguma medida, reformista, mas aceitou operar pela lógica do atraso que dizia combater. Daí o título, tomado da frase de Fernando Henrique Cardoso sobre a disputa entre PT e PSDB para ver “quem comanda o atraso”. Barros não iguala os dois partidos, mas sugere que o PT acabou enredado num sistema que não conseguiu transformar a tempo. O Mensalão marca, assim, não apenas um escândalo, mas a perda de uma identidade moral que havia sido central para o partido.
Capítulo 13 — A volta do Estado
O capítulo seguinte acompanha o segundo governo Lula e o momento de maior força do lulismo. Reeleito em 2006, Lula retorna ao Planalto já apoiado por uma base social diferente: mais pobre, mais periférica, mais nordestina e menos concentrada na classe média escolarizada que antes compunha parte importante do eleitorado petista. Barros usa a tese de André Singer para mostrar que esse realinhamento não é apenas eleitoral; ele expressa a convergência entre a liderança de Lula e o subproletariado beneficiado por políticas de combate à pobreza. O petismo encontra, enfim, o povo pobre que desejava representar desde a origem, mas o faz muito mais por via distributiva do que por politização militante.
É também o momento da volta do Estado. Com a crise do Mensalão administrada, a situação internacional favorável e o caixa público mais folgado, Lula passa a investir mais fortemente em políticas de investimento, crédito, infraestrutura e coordenação estatal. O PAC, o fortalecimento do BNDES, a aposta no pré-sal e a recuperação da capacidade estatal de projetar obras e coordenar ações compõem esse novo ciclo. Barros considera que esse impulso teve resultados reais: o crescimento acelera, a economia ganha fôlego e o país vive o que Laura Carvalho chamou de “milagrinho”. Mas ele também registra a dose de euforia excessiva, a multiplicação simultânea de projetos e a crescente dificuldade de coordenação.
No plano político e cultural, o capítulo mostra um governo mais confiante, internacionalmente prestigiado e disposto a integrar agendas que iam da redução da pobreza às políticas afirmativas e ambientais. É nesse contexto que ganham relevo tanto a ascensão de Dilma Rousseff como gestora do PAC quanto a trajetória de Marina Silva, cuja passagem pelo governo e posterior saída revelam limites importantes da coalizão lulista. Barros trata Marina como personagem importante porque ela encarna uma tentativa de combinar esquerda social, ambientalismo e religiosidade popular sem caber plenamente no esquema tradicional do PT.
O capítulo termina com a sucessão de 2010. Lula escolhe Dilma para preservar o protagonismo do PT depois de si, evitando dissolver o partido no puro lulismo ou numa candidatura externa como Ciro Gomes. A eleição é vencida, mas Barros mostra que o processo já traz sinais do que virá: tensão com evangélicos em torno do aborto, desgaste na relação com Marina, crescimento de um conservadorismo social que o PSDB começa a explorar com mais nitidez e uma herança de investimentos e expectativas elevadas que cairá no colo da sucessora. A volta do Estado foi bem-sucedida enquanto Lula podia arbitrá-la; sob Dilma, isso se mostraria muito mais difícil.
Capítulo 14 — Dilma tenta o salto
Barros abre este capítulo com uma tese simples e dura: Dilma Rousseff não podia fazer o mesmo governo que Lula. O ciclo fácil de inclusão social já havia passado, o cenário internacional piorara, as contas públicas exigiam correção e os próximos passos dependeriam de reformas mais complexas e menos imediatamente recompensadoras. Em vez de administrar a escassez com prudência, Dilma escolhe tentar um salto: juros mais baixos à força, câmbio mais competitivo, desonerações, intervenção setorial, redução de tarifas e uma coordenação mais centralizada da economia. A chamada Nova Matriz Econômica aparece no capítulo como aposta arriscada num contexto em que os instrumentos herdados já estavam enfraquecidos.
Ao mesmo tempo, Dilma tenta reorganizar politicamente o governo por meio de uma “faxina”, demitindo ministros acusados de corrupção e sinalizando desconforto profundo com a própria base aliada, sobretudo com o PMDB. Barros trata isso como gesto compreensível, mas politicamente caro. Ao moralizar a relação com aliados sem construir base alternativa robusta, Dilma enfraquece sua sustentação num sistema que continuava exigindo mediações intensas. O capítulo lembra ainda que o governo conviveu com avanços importantes no campo de direitos — cotas, uniões homoafetivas, Comissão da Verdade —, mas essas vitórias não reconstituíram a coalizão governante.
O ponto de inflexão é junho de 2013. Barros reconstrói os protestos com atenção às suas origens no MPL, ao papel da repressão policial e à perplexidade petista diante de uma explosão que já não cabia no enquadramento clássico governo/oposição. A comparação implícita com 1978 é reveladora: de novo, um ciclo de expectativas crescentes é interrompido, mas agora não surge uma organização de massa capaz de dar forma política progressista ao descontentamento. A indignação se espalha, mistura pautas, radicaliza o antipetismo de certos setores e acelera a erosão da legitimidade do sistema. O PT, que antes soubera traduzir a energia social ascendente, agora parece não entender a linguagem da rua.
A eleição de 2014 fecha o capítulo em clima sombrio. Após a morte de Eduardo Campos, a ascensão de Marina Silva e o confronto duro com Aécio Neves, Dilma se reelege por margem estreitíssima e depois de uma campanha extremamente agressiva. Barros considera que o PT falhou ali em pensar como partido de longo prazo: ganhou a eleição, mas ajudou a incendiar o ambiente político de um modo que tornaria o segundo mandato quase inviável. Dilma vence, porém entra no novo governo com herança econômica pesada, base política fraturada e uma oposição radicalizada.
Capítulo 15 — O PT cai primeiro
Celso Rocha de Barros abre o capítulo mostrando que Dilma Rousseff iniciou o segundo mandato já cercada por uma tempestade de três frentes. A primeira era econômica: a queda do preço do petróleo e das commodities piorava brutalmente o cenário externo justamente quando a Nova Matriz Econômica já havia produzido desequilíbrios internos importantes. A segunda era judicial-política: a Lava Jato chegava ao coração da Petrobras e das grandes empreiteiras, atingindo o mecanismo de financiamento de praticamente todo o sistema partidário. A terceira era ideológica: depois da derrota de Aécio em 2014, a direita brasileira entrou numa guerra interna que acelerou sua radicalização. Para o autor, isso significa que a crise de 2015-16 não nasceu apenas de erros de Dilma; ela começou com a combinação de herança econômica ruim, choque externo, explosão da investigação anticorrupção e radicalização da oposição, já montada antes mesmo da posse.
Em seguida, Barros enfatiza o tamanho do erro político cometido por Dilma ao realizar, logo após uma campanha fortemente polarizada, uma guinada econômica que sua própria base não esperava. A nomeação de Joaquim Levy simboliza o “estelionato eleitoral”: depois de atacar Marina e Aécio por supostamente planejarem um ajuste duro, Dilma entrega a Fazenda a um economista identificado com o ajuste duro. O autor reconhece que muitas correções eram necessárias — preços administrados artificialmente, desonerações disfuncionais, contas públicas desorganizadas —, mas sustenta que o pacote foi severo e rápido demais para as condições políticas do momento. O resultado foi devastador: inflação puxada pela recomposição de preços, recessão aprofundada, bancada petista desmobilizada, militância perplexa e perda da capacidade de defesa pública do governo. O ajuste talvez pudesse funcionar em condições normais; naquele ambiente, não tinha como.
Barros então reconstrói duas forças que passam a operar juntas, ainda que não sejam a mesma coisa: a nova direita de rua e a Lava Jato. De um lado, movimentos como o MBL transformam a energia antissistema de 2013 em mobilização antipetista de massa, primeiro em aliança tensa com o PSDB e depois já em choque com ele. De outro, a Lava Jato revela com enorme potência o sistema de corrupção e financiamento ilegal da política, mas o faz com instrumentos e métodos que ampliam seu poder político: prisões preventivas longas, delações, vazamentos seletivos e uma atmosfera messiânica em torno de Sergio Moro e dos procuradores. O autor é cuidadoso aqui: ele não vê evidência séria de que a operação tenha nascido como conspiração imperial contra o PT, mas sustenta que ela rapidamente se tornou um fator político decisivo e que alguns de seus protagonistas passaram a agir muito além do papel institucional que deveriam cumprir. A crítica de Barros não absolve a corrupção petista; ela mira o modo como o combate à corrupção foi absorvido pela crise política e usado para alimentar uma onda de antipetismo muito mais ampla.
O desfecho do capítulo é o impeachment, que Barros trata como produto da combinação entre colapso econômico, fraqueza política do governo, chantagem de Eduardo Cunha, pressão de rua e uso instrumental da Lava Jato por parte de setores que queriam “estancar a sangria”. Dilma preserva a autonomia de José Eduardo Cardozo e não bloqueia a operação — talvez por honestidade pessoal, talvez por cálculo, talvez pelos dois motivos —, enquanto o PT se divide entre defender o ajuste, romper com o PMDB ou voltar à linguagem militante. O governo perde a batalha em todas as frentes. Quando Cunha ameaça explicitamente abrir o impeachment se o PT votar por sua cassação no Conselho de Ética, fica claro o grau de decomposição da situação. No fim, Dilma cai por acusações fiscais menores, não pelas razões reais que moviam a crise. O balanço final do autor é duro e ambivalente: os governos petistas deixaram realizações sociais e democráticas importantes, mas também aceitaram as regras corruptas de financiamento do sistema e ampliaram, por meio do estatismo, a massa de recursos sob disputa. O ciclo deveria ter terminado com uma derrota eleitoral normal em 2018, que permitisse ao PT se renovar na oposição. Não foi o que ocorreu. O partido caiu antes dos outros, mas a crise logo mostraria que ele não era o único nem o principal cadáver do processo.
Capítulo 16 — Democracia em crise
No capítulo final, Barros amplia o foco e tira a crise do terreno exclusivo do PT para situá-la como crise da própria democracia brasileira. Ele começa enfrentando diretamente a palavra “golpe”. Entende perfeitamente por que os petistas a usam para descrever o impeachment de 2016: a base jurídica foi irrelevante no debate público, os vencedores da eleição de 2014 foram removidos por quem havia perdido, e a operação toda teve algo de manobra espúria para proteger a classe política da Lava Jato e transferir o poder para o campo derrotado nas urnas. Ainda assim, o autor resiste a usar o termo de modo absoluto. Para ele, o impeachment foi uma fraude política grave, mas não necessariamente uma ruptura constitucional do mesmo tipo que seria uma intervenção militar ou miliciana aberta. A formulação é deliberadamente nuançada: mais importante do que encerrar o debate sem resto é perceber que 2015-16 inaugura uma crise democrática longa, brasileira e ao mesmo tempo conectada ao ciclo global pós-2008, em que normas de convivência se degradam, a polarização se acelera e forças autoritárias ganham tração.
A sequência mostra que o governo Temer não recompôs a normalidade. Houve, sim, algumas mudanças institucionais relevantes — especialmente a introdução do financiamento público de campanha e a proibição de coligações proporcionais, vistas por Barros como possíveis ganhos de longo prazo —, além de reformas como a trabalhista e o teto de gastos. Mas a recomposição veio misturada à rápida reação do sistema contra a própria Lava Jato. Depois de derrubar Dilma em nome da moralidade, Congresso, governo e partes do Judiciário passaram a limitar investigações, buscar foro privilegiado, segurar acusações e tratar com benevolência nomes da direita e do centro antes expostos pela operação. A absolvição da chapa Dilma-Temer no TSE é, para Barros, um símbolo cristalino da mudança de ambiente: de repente, o problema já não era mais o dinheiro sujo de campanha. O sistema acreditou ter recuperado o controle. O autor insiste que era uma leitura míope. A revolta antissistema produzida pela crise econômica, pela Lava Jato e pelo descrédito das elites não havia desaparecido; estava apenas procurando outro veículo.
É nesse contexto que o capítulo examina a travessia do PT após o impeachment e a prisão de Lula. Barros registra a radicalização retórica do partido em 2016, inclusive em documentos que lamentavam não ter usado mais duramente o poder sobre Polícia Federal, Ministério Público e verba publicitária estatal. Ele chama esse tipo de reação de “autocrítica errada”: compreensível como sintoma de trauma, mas equivocada como leitura do que dera errado. Ao mesmo tempo, mostra que o PT institucional seguiu mais pragmático do que sua militância, continuando a negociar e a sobreviver nos estados. A prisão de Lula ocupa lugar central porque, para o autor, sintetiza a assimetria do período: a direita soube proteger seus líderes no momento em que sua queda implicaria entregar poder ao adversário; a esquerda não conseguiu fazer o mesmo. A condenação do tríplex foi frágil já na origem e depois se tornaria ainda mais comprometida pela Vaza Jato, que expôs a promiscuidade entre juiz e acusação. Mas, no timing decisivo, Lula foi retirado da disputa presidencial. O resultado político disso foi imenso.
Daí Barros passa à eleição de 2018 e ao governo Bolsonaro, que ele trata como mudança de escala no desastre. Bolsonaro não é lido como direita conservadora comum, mas como expressão do “porão” autoritário da história brasileira. A facada o ajuda, mas não o explica: ele vence porque a sociedade procurava uma tela em branco antissistema, e porque a centro-direita tradicional, desmoralizada pelo fracasso de Temer, prefere não construir uma frente democrática com o PT. A nomeação de Sergio Moro para o Ministério da Justiça sela, retrospectivamente, a politização da Lava Jato. Depois, o bolsonarismo degrada ainda mais a democracia: destrói a própria Lava Jato, alia-se ao Centrão, opera por orçamento secreto, reintroduz os militares no centro da política e, durante a pandemia, produz uma devastação humana que Barros trata como catástrofe histórica. O fecho do livro é paradoxal e exigente: como a centro-direita da Nova República ruiu, o PT — justamente o partido que não comandou a democratização “por cima” dos anos 1980 — pode acabar encarregado de reorganizar a democracia brasileira. A imagem final dos metalúrgicos de São Bernardo formando no chão a palavra “Democracia” resume a tese do autor: a escrita da democracia ficou interrompida. Talvez agora caiba outra vez ao PT e aos seus aliados tentar completá-la.
Ver também
- resumo_presidencialismo_de_coalizao_abranches — O mapa institucional que completa a história do PT: explica por que ao governar o partido preservou o presidencialismo de coalizão em vez de reformá-lo, e por que a coalizão de Dilma entrou em colapso.
- resumo_os_sentidos_do_lulismo — André Singer analisa o fenômeno eleitoral produzido pelo PT no poder, especialmente o lulismo como movimento conservador da ordem com reformismo gradual — a face eleitoralmente bem-sucedida do mesmo processo que Barros narra pelo ângulo interno do partido.
- sociabilidade_novarepublica — O contexto de capital social e associativismo em que o PT nasceu e a que ajudou a dar forma; o enfraquecimento desse tecido é o pano de fundo do colapso petista.
- Thymos e os Ciclos Partidários Brasileiros — Reconhecimento, Pertencimento e Identidade Nacional na República — Lê o ciclo petista pela chave do reconhecimento timico: o PT mobilizou thymos das classes populares mas não produziu infraestrutura de pertencimento duradoura.
- democratic_erosion — O processo descrito no capítulo final de Barros — degradação das normas democráticas, polarização e ascensão autoritária — é o fenômeno comparado que a literatura sobre erosão democrática teoriza.