“Rejeita os Dois Igualmente” — O Perfil Completo segundo a Ipsos/Ipec
Este ensaio analisa o perfil demográfico e comportamental do grupo que “rejeita os dois igualmente” — Lula e Bolsonaro — segundo a pesquisa Ipsos/Ipec de agosto de 2025 (n=2.000, 132 municípios). O grupo representa 22% do eleitorado brasileiro, cerca de 35 milhões de eleitores, e é o terceiro maior segmento da segmentação — menor que os rejeitadores unilaterais, mas maior que os que não rejeitam ninguém.
O grupo concentra capital humano (jovem, urbano, escolarizado, de alta renda, sem religião, Sudeste/Sul) e é numericamente decisivo — maior que a margem de qualquer eleição recente. É o público natural de uma terceira via que não encontrou candidato viável desde o colapso do PSDB. Em 2022, 53% de quem votou branco ou nulo já rejeitava os dois — sinal de que o grupo estava fora do jogo antes de qualquer desencanto pós-eleitoral.
O cruzamento com Locomotiva, More in Common/Quaest e Navigator revela que o grupo não ocupa o centro ideológico: é incoerente por design, misturando posições progressistas (armas, drogas) com conservadoras (aborto) e profunda neutralidade sobre o tamanho do Estado. A rejeição a Lula é um fenômeno masculino, de alta renda, sulista e evangélico; a rejeição dupla atravessa todas essas clivagens. O paradoxo central: é o grupo com mais recursos e menos poder político — sem partido, candidato, representação no Congresso nem organização que o represente.
Análise construída a partir do relatório de tabelas “Eleição 2026 — Pesquisa Ipsos-Ipec”, campo de 01 a 05 de agosto de 2025, n=2.000, 132 municípios, margem de erro de 2 p.p. (95% de confiança). Dados complementares cruzados com Locomotiva, More in Common/Quaest e Navigator.
1. A pergunta e os quatro grupos
A pesquisa Ipsos/Ipec perguntou diretamente: “Gostaria de saber se o(a) sr(a)…” com as seguintes opções de resposta:
| Resposta | % total |
|---|---|
| Rejeita mais Lula | 29% |
| Rejeita mais Bolsonaro | 30% |
| Rejeita os dois igualmente | 22% |
| Não rejeita nenhum dos dois | 18% |
| Não sabe / Não respondeu | 2% |
O grupo que nos interessa — “Rejeita os dois igualmente” — representa 22% do eleitorado, algo em torno de 35 milhões de eleitores. É o terceiro maior grupo, menor que os rejeitadores unilaterais mas significativamente maior que os que não rejeitam ninguém.
2. Perfil demográfico completo — todas as tabulações cruzadas
2.1. Sexo
| Sexo | % que rejeita os dois igualmente | % na amostra total |
|---|---|---|
| Masculino | 23% | 48% |
| Feminino | 20% | 52% |
Ligeiramente mais masculino, mas a diferença é modesta (3 p.p.). Contrasta com a volatilidade eleitoral (Locomotiva), que é mais feminina. Sugere que o homem que rejeita ambos é mais firme na rejeição; a mulher que rejeita tende a ser mais volátil e pode acabar votando em um dos dois.
2.2. Idade
| Faixa etária | % que rejeita os dois | % na amostra |
|---|---|---|
| 16 a 24 anos | 30% | 15% |
| 25 a 34 anos | 26% | 22% |
| 35 a 44 anos | 21% | 22% |
| 45 a 59 anos | 18% | 25% |
| 60 anos e mais | 16% | 16% |
Gradiente etário nítido e linear: a rejeição dupla cai de 30% entre os mais jovens para 16% entre os mais velhos. Praticamente o dobro. A juventude brasileira é o epicentro do desencanto com a polarização.
Para comparação:
- “Rejeita mais Lula” não tem gradiente etário claro (26%-32%, oscila sem tendência)
- “Rejeita mais Bolsonaro” tem gradiente inverso (26% entre jovens, 37% entre 60+)
- “Não rejeita nenhum” cresce com a idade (17% entre jovens, 21% entre 60+)
Insight: os mais velhos tendem a ter um lado (rejeitam Bolsonaro ou não rejeitam ninguém). Os mais jovens tendem a rejeitar os dois ou rejeitar mais Lula. A polarização é um fenômeno geracional: quem viveu a era FHC-Lula-Dilma internalizou a bipolaridade; quem não viveu, a recusa.
2.3. Escolaridade
| Escolaridade | % que rejeita os dois | % na amostra |
|---|---|---|
| Ensino Fundamental | 16% | 34% |
| Ensino Médio | 23% | 42% |
| Ensino Superior | 28% | 24% |
Gradiente educacional forte: quem tem diploma universitário rejeita ambos quase o dobro de quem tem fundamental (28% vs. 16%). A escolaridade alta confere “imunidade” à polarização — ou pelo menos confere vocabulário para expressar o desencanto.
Para comparação:
- “Rejeita mais Bolsonaro” tem gradiente inverso (37% fundamental vs. 28% superior) — os menos escolarizados rejeitam mais Bolsonaro
- “Não rejeita nenhum” também tem gradiente inverso (24% fundamental vs. 12% superior) — os menos escolarizados são mais “tolerantes” com ambos
Insight: o diploma divide o eleitorado de forma transversal ao eixo esquerda-direita. Entre os escolarizados, a rejeição dupla (28%) supera a rejeição apenas de Bolsonaro (28%) e praticamente empata com a rejeição apenas de Lula (30%). É um grupo que tem opinião forte — só que a opinião é “nenhum dos dois”.
2.4. Região
| Região | % que rejeita os dois | % na amostra |
|---|---|---|
| Norte/Centro-Oeste | 19% | 17% |
| Nordeste | 16% | 26% |
| Sudeste | 25% | 43% |
| Sul | 25% | 14% |
Sudeste e Sul lideram com 25% cada. O Nordeste, base lulista, tem apenas 16% de rejeição dupla — ali a dinâmica é mais binária (44% rejeitam mais Bolsonaro, 19% rejeitam mais Lula).
Para comparação:
- No Nordeste, “rejeita mais Bolsonaro” (44%) domina — é uma região com polo definido
- No Sul, “rejeita mais Lula” (36%) domina, mas a rejeição dupla (25%) também é forte
- No Sudeste, há equilíbrio tripartite: 31% Lula, 27% Bolsonaro, 25% ambos
Insight: a rejeição dupla é um fenômeno do Brasil urbano e economicamente dinâmico. Onde a economia se diversificou (Sudeste, Sul), o eleitor pode se dar ao “luxo” de rejeitar ambos. Onde a dependência do Estado é maior (Nordeste), a lógica binária prevalece.
2.5. Condição do município
| Tipo | % que rejeita os dois | % na amostra |
|---|---|---|
| Capital | 25% | 24% |
| Periferia | 24% | 14% |
| Interior | 20% | 62% |
Capitais e periferias metropolitanas têm rejeição dupla mais alta que o interior. Isso é consistente com o perfil urbano/escolarizado do grupo.
Dado surpreendente: a periferia metropolitana (24%) é quase tão alta quanto as capitais (25%). A narrativa de que a periferia é “território disputável entre Lula e Bolsonaro” precisa ser matizada: quase 1 em 4 periféricos rejeita ambos.
2.6. Porte do município
| Porte | % que rejeita os dois | % na amostra |
|---|---|---|
| Até 50 mil hab. | 18% | 29% |
| Mais de 50 a 500 mil | 22% | 41% |
| Mais de 500 mil | 25% | 30% |
Gradiente urbano claro: quanto maior a cidade, maior a rejeição dupla.
2.7. Renda familiar
| Renda (em salários mínimos) | % que rejeita os dois | % na amostra |
|---|---|---|
| Mais de 5 SM | 31% | 12% |
| Mais de 2 a 5 SM | 22% | 26% |
| Mais de 1 a 2 SM | 20% | 27% |
| Até 1 SM | 19% | 29% |
O dado mais forte de toda a pesquisa: entre quem ganha mais de 5 salários mínimos, 31% rejeitam ambos — é a maior taxa de rejeição dupla de qualquer segmento demográfico.
Para comparação, nessa mesma faixa de renda:
- 36% rejeitam mais Lula
- 23% rejeitam mais Bolsonaro
- 31% rejeitam ambos
- Apenas 7% não rejeitam nenhum
Insight: a elite econômica brasileira está quase inteiramente no campo da rejeição — apenas 7% não rejeitam ninguém. Mas estão divididos entre rejeitar Lula (36%) e rejeitar ambos (31%). A “terceira via” é, antes de tudo, uma demanda da classe alta.
Na base da pirâmide (até 1 SM):
- 22% rejeitam mais Lula
- 34% rejeitam mais Bolsonaro
- 19% rejeitam ambos
- 24% não rejeitam nenhum
Insight: na base, a tolerância com ambos (24%) é 3,4 vezes maior que no topo (7%). O pobre brasileiro é mais ecumênico politicamente — ele pode votar em qualquer um, dependendo do que ofereçam.
2.8. Raça/Cor
| Raça/Cor | % que rejeita os dois | % na amostra |
|---|---|---|
| Branca | 24% | 42% |
| Preta/Parda | 20% | 56% |
Brancos rejeitam ambos 4 p.p. mais que pretos/pardos. Consistente com o perfil mais escolarizado e de maior renda.
2.9. Religião
| Religião | % que rejeita os dois | % na amostra |
|---|---|---|
| Católica | 19% | 49% |
| Evangélica | 23% | 32% |
| Outras/Sem religião | 26% | 19% |
Os sem religião lideram a rejeição dupla (26%). Evangélicos surpreendem com 23% — acima de católicos (19%). A narrativa de que evangélicos são bloco bolsonarista precisa ser nuançada: quase 1 em 4 evangélicos rejeita ambos.
Para comparação, entre evangélicos:
- 40% rejeitam mais Lula (o maior índice de qualquer segmento religioso)
- 17% rejeitam mais Bolsonaro (o menor)
- 23% rejeitam ambos
- 17% não rejeitam nenhum
Insight: o eleitorado evangélico se divide em três terços aproximados: anti-Lula firme (~40%), rejeitador duplo (~23%), e o restante dividido entre anti-Bolsonaro e tolerantes. O “voto evangélico” é muito menos monolítico do que parece.
2.10. Voto no 2º turno de 2022
| Voto em 2022 | % que rejeita os dois | Base (n) |
|---|---|---|
| Votou em Bolsonaro | 19% | 778 |
| Votou em Lula | 15% | 834 |
| Branco/Nulo | 53% | 146 |
| Não votou / NS / NR | 35% | 242 |
O dado mais revelador da pesquisa inteira: 53% de quem votou branco ou nulo em 2022 hoje rejeita ambos igualmente. E 35% de quem não votou ou não lembra também rejeita ambos.
Isso confirma que o grupo “rejeita os dois igualmente” é esmagadoramente composto por quem já estava fora do jogo em 2022. Não é gente que “se desencantou depois” — é gente que já não queria nenhum dos dois quando teve que votar.
Entre os ex-eleitores de Bolsonaro, 19% agora rejeitam ambos (são os arrependidos parciais — ainda mais anti-Lula, mas já não suportam Bolsonaro). Entre os ex-eleitores de Lula, 15% rejeitam ambos (arrependidos parciais do outro lado).
3. Tabela-resumo: o retrato do “Rejeita os Dois”
| Variável | Sobre-representação | Sub-representação |
|---|---|---|
| Idade | Jovens 16-34 (26-30%) | Idosos 60+ (16%) |
| Renda | Acima de 5 SM (31%) | Até 1 SM (19%) |
| Escolaridade | Ensino Superior (28%) | Ens. Fundamental (16%) |
| Região | Sudeste e Sul (25% cada) | Nordeste (16%) |
| Urbanização | Capitais (25%), cidades >500 mil (25%) | Interior (20%), cidades <50 mil (18%) |
| Raça | Brancos (24%) | Pretos/pardos (20%) |
| Religião | Sem religião (26%) | Católicos (19%) |
| Gênero | Masculino (23%) | Feminino (20%) |
| Voto 2022 | Branco/nulo (53%), não votou (35%) | Votou Lula (15%) |
Em uma frase: jovem, urbano, escolarizado, de renda alta, branco, sem religião, do Sudeste ou Sul, que votou branco/nulo em 2022. É o eleitor da “bolha” que não é bolha — porque são 35 milhões.
4. Comparação com os outros grupos
4.1. Rejeita mais Lula (29%) — o anti-petista
| Variável | Sobre-representação |
|---|---|
| Sexo | Masculino (33% vs. 25% feminino) |
| Renda | >5 SM (36%) |
| Religião | Evangélica (40%) — o dado mais forte |
| Região | Sul (36%), Norte/CO (33%) |
| Escolaridade | Ensino Médio (34%) |
| Voto 2022 | Ex-Bolsonaro (65%) |
4.2. Rejeita mais Bolsonaro (30%) — o anti-bolsonarista
| Variável | Sobre-representação |
|---|---|
| Sexo | Feminino (33% vs. 26% masculino) |
| Idade | 60+ (37%) — o mais velho dos grupos |
| Escolaridade | Ens. Fundamental (37%) |
| Região | Nordeste (44%) — domina |
| Renda | Até 1 SM (34%), >1-2 SM (33%) |
| Religião | Católica (38%) |
| Voto 2022 | Ex-Lula (63%) |
4.3. Não rejeita nenhum dos dois (18%) — o ecumênico
| Variável | Sobre-representação |
|---|---|
| Escolaridade | Ens. Fundamental (24%) |
| Região | Norte/CO (22%), Nordeste (20%) |
| Renda | Até 1 SM (24%) — o mais pobre |
| Idade | 60+ (21%) |
| Voto 2022 | Não votou/NS (26%) |
O contraste central
O anti-petista é evangélico, masculino, de renda média-alta, do Sul. O anti-bolsonarista é católico, feminino, idoso, nordestino, de baixa renda. O que rejeita ambos é jovem, de alta renda, escolarizado, sem religião, urbano. O que não rejeita nenhum é pobre, idoso, do interior, pouco escolarizado.
Os dois primeiros grupos são espelhos ideológicos invertidos. O terceiro é uma outra coisa inteiramente — não está no espectro, está fora dele. O quarto é pré-ideológico: não entrou na briga.
5. O que esse grupo quer — inferências cruzadas
A pesquisa Ipsos/Ipec é um relatório de tabelas e não perguntou diretamente sobre demandas. Mas cruzando com a Locomotiva e a Navigator, podemos inferir:
Da Locomotiva (perfil dos Desiludidos, 27%):
- Economia e custo de vida (41%) é a porta de entrada
- Quer gestão eficiente, transparência, corte de gastos (19%)
- Não quer guerra cultural — está exausto dela
Da Navigator (Bateria de Valores, set/2025):
- Os clusters “esquerda não-lulista” e “direita não-bolsonarista” — que aproximam o perfil do rejeitador duplo — têm as maiores taxas de neutralidade em quase todos os temas
- 51% da esquerda não-lulista é neutra sobre valores cristãos guiarem leis
- 46% da direita não-bolsonarista é neutra sobre disponibilidade de emprego
- O consenso universal é em torno do trabalho como valor e direito
Da More in Common/Quaest (“Os Invisíveis”, jan-fev/2025):
- Conservadores moderados nos costumes, mas sem radicalismo
- Apoiam programas sociais apesar do conservadorismo moral
- Praticamente ausentes de manifestações e do debate público
6. A geografia da rejeição dupla — mapa implícito
Com os dados regionais e de porte municipal, podemos construir um mapa mental:
Onde a rejeição dupla é mais forte (22-31%):
- Capitais do Sudeste e Sul
- Cidades >500 mil habitantes
- Bairros de classe média-alta e alta
- Regiões metropolitanas (incluindo periferias)
Onde é mais fraca (16-19%):
- Nordeste (dominado pela dinâmica anti-Bolsonaro)
- Interior de cidades pequenas (<50 mil)
- Faixa de renda até 1 SM
- Populações com ensino fundamental
Isso é consistente com a tese de que o “centro exausto” brasileiro é um fenômeno do Brasil que se urbanizou, se escolarizou e se secularizou — mas que não encontrou representação política depois da morte do PSDB.
7. Dinâmica temporal — o que acontece com esse grupo em 2026?
A pesquisa não tem série histórica, mas podemos especular a partir da estrutura:
Cenário 1 — Polarização forçada no 2º turno: se a eleição de 2026 reproduzir Lula x Bolsonaro (ou substituto direto), esse grupo será forçado a escolher. Em 2022, a maioria votou branco/nulo (53%). Se repetirem, ampliam a abstenção efetiva — o que pode beneficiar quem mobilizar melhor sua base. Se forem forçados a escolher, o perfil demográfico (jovem, rico, escolarizado, urbano) sugere tendência anti-Lula (inclinação para a direita moderada), mas com enorme relutância.
Cenário 2 — Terceira via competitiva: se surgir um candidato que fale de economia concreta, gestão eficiente e pare de brigar, esse grupo de 22% é sua base natural. Somado a parcelas dos “inclinados” (Locomotiva), o potencial teórico de um candidato assim é de 30-40%. O problema é que nenhum candidato assim conseguiu viabilidade eleitoral desde a morte do PSDB.
Cenário 3 — Fragmentação: parte do grupo migra para anti-Lula (se a economia piorar), parte se abstém, parte vota em candidatos menores. O grupo se dissolve sem nunca ter se constituído como força política.
8. A assimetria da rejeição — por que importa
Um dado sutil mas crucial: a rejeição não é simétrica entre os campos.
| Rejeita mais Lula | Rejeita mais Bolsonaro | Diferença | |
|---|---|---|---|
| Total | 29% | 30% | Bolsonaro rejeitado 1 p.p. mais |
| Homens | 33% | 26% | Lula rejeitado 7 p.p. mais |
| Mulheres | 25% | 33% | Bolsonaro rejeitado 8 p.p. mais |
| 16-24 anos | 26% | 26% | Empate |
| 60+ anos | 23% | 37% | Bolsonaro rejeitado 14 p.p. mais |
| >5 SM | 36% | 23% | Lula rejeitado 13 p.p. mais |
| Até 1 SM | 22% | 34% | Bolsonaro rejeitado 12 p.p. mais |
| Nordeste | 19% | 44% | Bolsonaro rejeitado 25 p.p. mais |
| Sul | 36% | 22% | Lula rejeitado 14 p.p. mais |
A rejeição a Lula é um fenômeno masculino, de renda alta, sulista e evangélico. A rejeição a Bolsonaro é um fenômeno feminino, idoso, nordestino e católico. A rejeição dupla atravessa essas clivagens — é onde homens e mulheres, ricos e pobres convergem na exaustão.
9. Síntese — o que define quem “rejeita os dois igualmente”
É o grupo que:
- Tem opinião forte, mas negativa — não é indiferente, é ativamente desencantado
- Já estava fora em 2022 — 53% votaram branco/nulo, não é desencanto recente
- Concentra capital humano — escolaridade e renda altas, urbano, jovem
- Não tem representação — é o eleitor “sem partido” da democracia brasileira contemporânea
- É numericamente decisivo — 22% do eleitorado (35 milhões) é maior que a margem de qualquer eleição recente
Não é:
- Um “centrão” passivo — é ativamente insatisfeito
- Um bloco homogêneo — contém tanto o jovem paulistano quanto o periférico metropolitano
- Necessariamente moderado — pode ter posições fortes, só que misturadas
- Um grupo que vai desaparecer — as tendências demográficas (urbanização, escolarização, secularização) o alimentam
O paradoxo:
É o grupo com mais recursos (educação, renda, acesso à informação) e menos poder político. Não tem partido, não tem candidato, não tem representação no Congresso, não tem bancada, não tem frente. O sistema institucional brasileiro — presidencialismo de coalizão, lista aberta, Centrão — foi desenhado para absorver interesses setoriais, não disposições ideológicas difusas. O “rejeita os dois” é uma disposição, não um interesse. E disposições não ganham eleições no Brasil.
Fontes
- Pesquisa_Ipsos-Ipec_Rejeicao_Lula_Bolsonaro_Relatorio_de_tabelas.pdf — Ipsos/Ipec, “Eleição 2026”, campo 01-05/ago/2025, n=2.000
- debate_polarização_independentes_divulg.pdf — Instituto Locomotiva (cruzamentos)
- Bateria de Valores_set2025.pdf — Navigator Research (cruzamentos)
- Readwise: ‘Os invisíveis’ como pensa a massa de eleitores que rechaça a polarização e pode decidir as eleições em 2026 — More in Common/Quaest (cruzamentos)
Ver também
- Desiludidos ou Desmotivados — O Centro Poroso da Locomotiva — análise complementar do mesmo universo pela segmentação Locomotiva: mesmo público, metodologia diferente, mesma conclusão sobre o desencanto
- affectivepolarization — o conceito que explica por que a briga é maior que a discordância real: a rejeição dupla é mais afetiva que substantiva
- partidos_novarepublica — o sistema partidário que falhou em representar esse grupo: a morte do PSDB como âncora do centro escolarizado
- Samuels-Zucco — Partidários, Antipartidários e Não-Partidários — a tipologia antipartidário puro vs. não-partidário de Samuels-Zucco captura exatamente a diferença entre “rejeita os dois” (antipartidário) e “não rejeita nenhum” (não-partidário)
- pablo_marcal — tentativa fracassada de empacotar o voto do rejeitador duplo: o caso empírico de como a terceira via tende a colapsar