Partidários, Antipartidários e Não-Partidários, de David Samuels e Cesar Zucco — Resumo

Resumo baseado na tradução de Fernando Nogueira da Costa do original Partisans, Antipartisans, and Nonpartisans: Voting Behavior in Brazil (Cambridge University Press, 2018).


Sinopse

David Samuels e Cesar Zucco argumentam, a partir de evidências cobrindo três décadas de democracia brasileira, que o partidarismo importa — mas quase inteiramente em torno do PT. Mais da metade dos brasileiros expressa forte afinidade ou antipatia por um partido, e essa divisão entre petistas e antipetistas estruturou o comportamento eleitoral muito mais do que a sabedoria convencional reconhecia. O grande achado teórico do livro é o conceito de “partidarismo negativo”: atitudes positivas e negativas não são espelhos — o antipetismo emergiu como fenômeno autônomo, sem que qualquer partido rival o cultivasse.

O livro combina análise de survey longitudinal, experimentos de raciocínio motivado e perspectiva comparativa para fundamentar uma tipologia 2×2 das atitudes partidárias: partidário positivo, antipartidário puro, partidário hard-core e não-partidário. A distinção crucial — negligenciada pela literatura — é entre não-partidários (indiferentes) e antipartidários puros (sem apego positivo, mas com rejeição intensa). O mecanismo do petismo combina estratégia de marca (“de cima para baixo”) com engajamento com a sociedade civil organizada (“de baixo para cima”). O antipetismo surgiu como subproduto irônico desse sucesso: ao construir identidade forte, o PT deu alvo nítido a quem se sentia ameaçado.

O livro é referência central para entender a polarização brasileira. A distinção petismo/lulismo tem implicações diretas para o realinhamento de 2022: o lulismo é personalismo (não sobrevive sem Lula), o petismo é identidade social (pode sobreviver, mas fragilizado sem a base construída via movimentos sociais). A análise do antipetismo como fenômeno normativo — visões distintas sobre o papel da democracia, não diferença de classe ou renda — conecta com a tese do thymos e com a análise dos Desiludidos.

Tese Central

A sabedoria convencional diz que o partidarismo importa pouco no Brasil — que o que move o eleitor é personalismo, desempenho econômico e o pragmatismo do “toma-lá-dá-cá”. Samuels e Zucco contestam isso com evidências cobrindo três décadas. Desde a redemocratização, mais da metade dos brasileiros expressou forte afinidade ou antipatia por um partido — quase inteiramente em relação ao PT. Petismo e antipetismo estruturaram o comportamento eleitoral de forma muito mais determinante do que se reconhecia.


O Quadro Conceitual: Tipologia das Atitudes Partidárias

Os autores propõem uma matriz 2×2 que distingue quatro perfis de eleitor:

Tem partido favoritoNão tem partido favorito
Rejeita fortemente outro partidoPartidário “hard-core”Antipartidário puro
Não rejeita nenhumPartidário positivo simplesNão-partidário (indiferente)

A distinção crucial — negligenciada pela literatura — é entre não-partidários (indiferentes) e antipartidários puros (sem apego positivo, mas com rejeição intensa a um partido específico). Confundir os dois grupos é uma grave perda de informação analítica.

O conceito de partidarismo negativo é o grande diferencial teórico do livro: atitudes positivas e negativas não são espelhos uma da outra. Muitos petistas não têm antipatia intensa por outro partido; a maioria dos antipetistas não tem qualquer apego positivo a nenhuma outra sigla. O antipetismo emergiu como fenômeno autônomo, não como reflexo do PSDB ou de qualquer rival.


Os Dois Quebra-Cabeças

Quebra-Cabeça 1: A ascensão do petismo

Como o PT construiu identificação partidária em massa num sistema eleitoral que teoricamente impede isso? O Brasil dos anos 1980 não tinha as condições clássicas: sem clivagens étnicas, linguísticas ou religiosas, com instituições que incentivam o personalismo. As teorias disponíveis (socialização infantil, clivagens sociológicas, esforço de elite “de cima para baixo”) não explicam satisfatoriamente.

O petismo é um caso de alinhamento primário — surgimento do zero, não realinhamento de algo preexistente.

Quebra-Cabeça 2: A natureza do antipetismo

Por que tantos brasileiros odeiam o PT sem se identificar com qualquer outro partido? O antipetismo antecede Dilma, antecede o Lava-Jato, antecede a recessão. Em eleições com bom desempenho econômico, a parcela de antipetistas era apenas ligeiramente menor. A maioria dos antipetistas não é tucana: rejeita o PT sem migrar para nenhuma outra identidade positiva.


O Argumento: Como o Petismo (e o Antipetismo) Surgiu

Para o petismo — dois mecanismos combinados:

  1. Estratégia de marca e organização (“de cima para baixo”): o PT investiu sistematicamente em diretórios municipais e numa marca programática coerente. O PSDB e o PMDB nunca fizeram o equivalente.

  2. Engajamento com a sociedade civil (“de baixo para cima”): o PT alcançou indivíduos já mobilizados em sindicatos, movimentos sociais e associações. A organização local do partido é o “elo perdido” entre oferta (elites partidárias) e demanda (base social). Sociedade civil densa + estratégia consciente = petismo em massa.

A mudança qualitativa do petismo: os primeiros petistas (pré-2002) eram ideologicamente motivados. Os petistas dos anos Lula eram majoritariamente “pragmáticos ativistas” — acreditavam na eficácia da participação política mas queriam resultados concretos para si e sua família. Essa mudança de perfil explica diretamente o declínio posterior.

Para o antipetismo — ironia da Teoria da Identidade Social:

Quando um novo grupo social emerge com identidade coesa, aqueles que não se encaixam percebem-no como ameaça e desenvolvem atitudes negativas. O PT, ao construir uma identidade forte, deu a eleitores avessos à mudança social um alvo claro. O antipetismo emergiu espontaneamente, sem que qualquer partido rival o cultivasse. O PT foi vítima do seu próprio sucesso.


Capítulo 2 — A Extensão do Partidarismo (Dados Empíricos)

  • Desde os anos 1980, mais da metade dos eleitores mantém atitudes partidárias positivas e/ou negativas.
  • O sistema partidário no eleitorado gira quase inteiramente em torno do PT.
  • A divisão petistas/antipetistas não é demográfica: os dois grupos se parecem em classe, etnia e educação (ao menos até 2014) e compartilham muitas posições de política pública.
  • A divisão é normativa: trata-se de visões distintas sobre o valor e o propósito da democracia. Petistas apoiam a democracia como instrumento de mudança; antipetistas têm relação mais ambivalente com ela e temem as mudanças que o PT representa.

Capítulo 3 — O Raciocínio Motivado

O partidarismo funciona como em democracias consolidadas: os eleitores não avaliam racionalmente — filtram a realidade pelo viés partidário.

  • Partidários positivos racionalizam informações negativas sobre seu partido. O simples rótulo “PT” associado a uma posição é suficiente para que petistas a adotem como sua.
  • Antipetistas fazem o inverso: saber que o PT defende algo basta para se posicionarem contra.
  • O viés de grupo externo pode ser mais poderoso que o viés interno: antipetistas precisam apenas de informação sobre o partido detestado para orientar seu voto.

Implicação democrática: para uma parcela substancial do eleitorado, não existe avaliação “objetiva” do desempenho governamental. Tudo é mediado pelo filtro partidário — os “óculos de proteção” que sempre fazem o partido favorito parecer bem e o detestado parecer mal.


Capítulo 4 — Ascensão e Declínio do Petismo

Dois caminhos para o petismo:

Antes de 2002: via militância ideológica e engajamento com movimentos sociais. Petistas de princípio.

Depois de 2002: via desempenho do governo Lula. Políticas de igualdade social pareciam colocar os princípios do partido em prática. Novos petistas eram novos integrantes da classe média, atraídos por resultados, não por ideologia.

O declínio a partir de 2014:

Os autores privilegiam a má gestão econômica (recessão, erros do Banco Central, inflação de alimentos) sobre a corrupção como causa principal. Prova: o mensalão (2005-06) não destruiu o petismo porque a economia crescia. A corrupção danifica a imagem, mas não necessariamente a identidade partidária. A deterioração econômica atinge o bolso dos “petistas de bom tempo”.

O conceito de partidarismo limitado é central: eleitores oscilam entre identificar-se com um partido e declarar-se independentes, mas raramente trocam de partido. Muitos dos que “abandonaram” o PT podem ser petistas latentes.

A diluição da marca é fator indireto: ao moderar-se para governar, o PT atraiu partidários cujo vínculo era baseado em desempenho. Esses são os mais suscetíveis ao abandono quando o desempenho deteriora. A moderação gera dividendos eleitorais no curto prazo mas fragiliza a base no médio.


Capítulo 5 — Partidarismo e Comportamento de Voto

Contra a sabedoria convencional:

  • Para petistas e tucanos, o contexto econômico e os atributos dos candidatos importam pouco nas eleições presidenciais. O raciocínio motivado prevalece.
  • Para não-partidários, esses fatores contextuais são decisivos — a sabedoria convencional é válida para eles.
  • Para antipetistas, a escolha é dramaticamente simplificada: presença ou ausência de candidato apoiado pelo PT na cédula é o fator determinante.

O PSDB nunca investiu no cultivo de militantes. O PMDB desperdiçou o capital histórico da redemocratização. Por isso, o eixo PT/PSDB nas presidenciais deu ao sistema um verniz de coerência que não se traduzia nos demais níveis eleitorais.


Capítulo 6 — Perspectiva Comparativa

  • Antipartidários existem em toda parte; somam em média 1/3 dos eleitores normalmente classificados como “não-partidários”.
  • A parcela de antipartidários puros gira em torno de 10% do eleitorado em amostras comparativas.
  • Há variedades: no Brasil e México, antipatia concentrada em um partido principal por longo período; na França e Suíça, incide sobre partidos pequenos/extremistas; na Nova Zelândia e Irlanda, é função da filiação do eleitor.
  • Ignorar o antipartidarismo é perder informação valiosa sobre comportamento eleitoral.

Capítulo 7 — Conclusão: Seis Implicações

1. O partidarismo importa, mesmo onde não se espera — mas para cerca de metade do eleitorado brasileiro, nunca importou.

2. O partidarismo negativo é real e autônomo — não é reflexo do positivo. Deve ser incorporado sistematicamente nas pesquisas.

3. O partidarismo endogeniza as avaliações — para eleitores com identidade partidária, não existe avaliação “objetiva” do desempenho governamental.

4. Lulismo ≠ Petismo — o lulismo nunca foi identidade social no sentido técnico; o petismo sim. Quase todos os petistas admiram Lula, mas poucos dos que admiram Lula são petistas. O PT não sobrevive apenas com Lula.

5. O partidarismo complica a governança — a “separação de propósitos” do presidencialismo multipartidário: para governar, partidos programáticos precisam de coalizões que diluem seu programa; ao diluir, fragilizam sua base militante. Um dilema estrutural sem saída fácil.

6. Os limites do argumento — para a maioria dos brasileiros, o comportamento eleitoral nunca foi partidário. O PT foi a exceção histórica. Sem o PT como âncora, o sistema perde a coerência que tinha.


Atualização: Evangelismo e Antipetismo (Zucco, 2019)

Entrevista de Zucco ao Valor Econômico (dez. 2019) atualiza o quadro:

Reconfiguração sociodemográfica a partir de 2014:

  • Antes de 2014, petistas e antipetistas eram grupos parecidos sociodemograficamente (ambos mais ricos e escolarizados que os não-partidários).
  • A partir de 2014, antipetistas ficaram sistematicamente mais ricos e mais escolarizados que os petistas.

2018: o ingrediente evangélico

  • Em 2002–2010, sem diferença religiosa relevante entre os grupos.
  • Em 2018: diferença enorme. Os antipetistas passam a ter proporção muito maior de evangélicos.
  • A coalizão antipetista torna-se “mais rica, mais escolarizada e mais evangélica” — combinação aparentemente contraditória, dado que evangélicos estão concentrados nas camadas mais pobres.

O antipetismo muda de conteúdo ao longo do tempo:

  • Anos 1990: “medo da baderna”
  • Pós-mensalão (2005–06): associado à corrupção
  • Pós-2018: pauta de costumes conservadores + aliança com lideranças evangélicas

Os não-partidários (~50% do eleitorado): pouca instrução, baixo engajamento, ausentes das igrejas e sindicatos. Votam por condições econômicas e “afeto com os valores morais dos candidatos”. São o grande grupo não alcançado por nenhum partido.

Dado síntese (Ibope, dez. 2019): 35% antipetistas + 22% petistas = ~57% do eleitorado. Mas no segundo turno de 2018, o resultado foi 55% × 45% — o que significa que muitos não-partidários se alinharam conjunturalmente sem ter uma identidade partidária consolidada.


Para Reter

  • O petismo é o único caso de construção bem-sucedida de identidade partidária em massa na democracia brasileira. A combinação de marca coerente + organização local + engajamento com sociedade civil densa explica o fenômeno.
  • O antipetismo é o subproduto irônico desse sucesso: quanto mais o PT construiu uma identidade forte, mais deu um alvo nítido a quem se sentia ameaçado por ele.
  • Para ~50% do eleitorado, o partidarismo nunca importou. Para os outros 50%, estruturou praticamente tudo.
  • A divisão petista/antipetista não é de classe nem de renda (ao menos até 2014): é de visão de mundo sobre o papel da democracia e a legitimidade da mudança social.
  • O lulismo é personalismo, não identidade social. O petismo é identidade social, não personalismo. A distinção tem consequências práticas enormes para o futuro do PT.

Ver também

  • affectivepolarization — o conceito que captura o antipetismo: antipatia grupal intensa sem contrapartida afetiva positiva, exatamente o que Samuels-Zucco chamam de “partidarismo negativo autônomo”
  • fukuyama_identity_resumo — o argumento paralelo de fukuyama sobre identidade como motor político: como identidades fortes geram reações igualmente fortes de quem se sente ameaçado
  • Desiludidos ou Desmotivados — O Centro Poroso da Locomotiva — os “não-partidários” de Samuels-Zucco (os 50% para quem o partidarismo nunca importou) são o grupo que a Locomotiva chama de Desiludidos
  • partidos_novarepublica — o mapa dos partidos da Nova República que o livro ajuda a explicar: PT como única exceção construtora de identidade num sistema hostil ao partidarismo
  • thymos — o fio condutor entre o petismo e o antipetismo: a luta por reconhecimento explica tanto a identidade positiva quanto a rejeição negativa