Desiludidos ou Desmotivados — O Centro Poroso segundo o Instituto Locomotiva

Este ensaio mapeia o perfil e o comportamento do grupo que o Instituto Locomotiva denomina “Desiludidos ou Desmotivados” — 27% do eleitorado, o maior segmento individual da segmentação. O grupo se define por não ter votado em Lula nem em Bolsonaro no segundo turno de 2022, ou por ter votado em um dos dois e se arrependido. São ideologicamente incoerentes por design: progressistas em armas e drogas, conservadores no aborto, profundamente divididos sobre o papel do Estado.

A análise triangula quatro fontes (Locomotiva, Ipsos/Ipec, More in Common/Quaest, Navigator) para revelar que o grupo tem duas faces: o “Desiludido de cima” — jovem, urbano, rico, escolarizado, sem religião, do Sudeste/Sul — e o “Desiludido de baixo” — pouco escolarizado, periférico, nordestino, com insegurança alimentar. Ambos convergem no desencanto, mas por razões opostas. Dado central: brasileiros são 2,5 a 3 vezes menos polarizados que americanos nas mesmas questões — a polarização é mais performática que substantiva.

A porta de entrada para o Desiludido é a economia concreta (41% das demandas persuasíveis: preço dos alimentos, poder de compra, juros). Guerras culturais o afastam; promessas de gestão eficiente o atraem. O paradoxo do grupo: tem os maiores recursos políticos (educação, renda, acesso à informação) e o menor poder político — 65% sem identificação partidária, ausente de manifestações, silencioso no espaço público. O sistema presidencialista de coalizão foi desenhado para absorver interesses setoriais, não disposições ideológicas difusas: uma disposição não ganha eleições no Brasil.

Análise construída a partir do documento “5 Provocações sobre a Polarização no Brasil — Um Pensamento sobre a Porosidade do Eleitorado Brasileiro”, compilado pelo Instituto Locomotiva. Dados complementares cruzados com pesquisas Ipsos/Ipec, More in Common/Quaest e Navigator (Bateria de Valores set/2025).


1. Definição e tamanho

O Instituto Locomotiva segmentou o eleitorado brasileiro em cinco grupos, a partir de três variáveis:

  • Voto no 2º turno em 2018 e 2022
  • Autoposicionamento ideológico (escala esquerda–direita)
  • Arrependimento sobre o voto dado
Segmento% do eleitoradoDefinição
Petistas Convictos11%Se identificam como esquerda, votaram PT em 2018 e 2022, não se arrependem
Inclinados à Esquerda18%Votaram PT em 2022 sem arrependimento, mas não necessariamente votaram PT em 2018 nem se identificam como esquerda
Desiludidos ou Desmotivados27%Não votaram em Lula ou Bolsonaro em 2022, ou votaram em um dos candidatos e se arrependem
Inclinados à Direita26%Votaram Bolsonaro em 2022 sem arrependimento, mas não necessariamente votaram nele em 2018 nem se identificam como direita
Bolsonaristas Convictos18%Se identificam como direita, votaram Bolsonaro em 2018 e 2022, não se arrependem

O dado central: apenas 29% do eleitorado está cristalizado (11% + 18%). Os outros 71% — Inclinados à Esquerda + Desiludidos + Inclinados à Direita — são porosos, disputáveis, não plenamente calcificados.

Os Desiludidos/Desmotivados são o maior segmento individual e ocupam a posição central do espectro.


2. Quem são os Desiludidos — composição interna

O segmento se compõe de pelo menos três sub-perfis:

  1. Abstencionistas e brancos/nulos de 2022 — não votaram em nenhum dos dois candidatos no 2º turno
  2. Arrependidos de Lula — votaram nele e se arrependem
  3. Arrependidos de Bolsonaro — votaram nele e se arrependem

A pesquisa não decompõe a proporção interna entre esses três sub-perfis, mas a Ipsos/Ipec complementa: 53% de quem votou branco/nulo em 2022 hoje rejeita ambos igualmente, e 35% de quem não votou/não lembra também rejeita ambos.


3. Coerência ideológica — ou a falta dela

A Locomotiva testou posições em cinco temas para medir coerência ideológica:

  • Tributação e oferta de serviços públicos
  • Intervenção do Estado na economia
  • Porte de armas
  • Aborto
  • Drogas

Nos extremos: coerência alta

Segmento% com opiniões alinhadas em 3+ temas
Petistas Convictos69% têm posições progressistas coerentes
Bolsonaristas Convictos63% têm posições conservadoras coerentes

Nos intermediários: coerência baixa

Segmento% com opiniões alinhadas em 3+ temas
Inclinados à Esquerda48% progressistas
Inclinados à Direita32% conservadores

Nos Desiludidos: opiniões divididas, sem padrão claro

TemaVisão progressistaVisão conservadoraNeutros*
Porte de armas46%25%29%
Drogas39%32%29%
Intervenção do Estado na economia29%18%53%
Tributação e serviços públicos25%23%52%
Aborto24%44%32%

*Percentuais de progressista + conservador não somam 100% pois havia opção de neutralidade/nenhum dos dois.

Padrão dos Desiludidos: progressistas em armas e drogas, conservadores em aborto, profundamente divididos/neutros sobre o papel do Estado. Não são “de centro” no sentido de posições moderadas em tudo — são incoerentes por design, misturando posições que não cabem em nenhum dos dois pacotes ideológicos oferecidos.


4. As contradições reveladoras dos “inclinados”

A Locomotiva identificou contradições internas que revelam a porosidade de quem se inclina para um lado:

  • Entre Inclinados à Esquerda: 36% acreditam que o aborto deve ser considerado um crime (posição conservadora)
  • Entre Inclinados à Direita: 39% acreditam que o governo deve aumentar os investimentos na economia para garantir o crescimento (posição estatista/progressista)

Isso mostra que mesmo quem votou em Lula ou Bolsonaro sem arrependimento carrega posições “do outro lado”. O muro entre os campos é fino. A fronteira com os Desiludidos é fluida.


5. Comportamento eleitoral — abstenção e decisão tardia

Dados estruturais (2º turno 2022)

Dado%
Eleitores que não votaram no 2º turno20,5%
Eleitores que decidiram voto no dia da eleição ou na véspera14%
Eleitores que mudaram de voto em relação à intenção declarada 3 dias antes18%

Volatilidade — quem muda e quem não muda

Base: Painel de Migração Eleitoral Locomotiva, 3.338 respondentes acompanhados por 4 semanas.

Nível de volatilidade%Perfil sobre-representado
Estáveis70%Homens (73%), 35-54 anos (73%), Sul (72%), renda >5 SM (76%)
Alguma volatilidade18%Mulheres (19%), 16-34 anos (20%), renda até 1 SM (21%)
Alta volatilidade11%Mulheres (13%), 16-34 anos (13%)
Extrema volatilidade1%16-34 anos (2%), renda até 1 SM (2%)

Migração de última hora — perfil de quem muda na reta final

Base: 1.875 respondentes — eleitores que migraram de intenção de voto na semana anterior ao 2º turno vs. voto efetivo.

Perfil% de migração
Total18%
Jovens (16 a 34 anos)19%
35-54 anos17%
55+ anos18%
Ensino Fundamental24%
Ensino Médio18%
Ensino Superior13%
Renda até 2 SM24%
Renda >5 SM11%

Conclusão: quem muda de voto na última hora é desproporcionalmente jovem, de baixa escolaridade e de baixa renda. Quem tem renda alta e diploma é estável — mas muitos desses estáveis são justamente os Desiludidos que nem votaram.


6. A polarização brasileira é rasa — comparação com os EUA

A Locomotiva replicou no Brasil temas da Pew Research para comparar a distância entre eleitores dos dois campos.

Distância média entre eleitores dos dois polos

DimensãoBrasil (Lula x Bolsonaro)EUA (Trump x Kamala)
Costumes19 p.p.45 p.p.
Visão do Estado16 p.p.57 p.p.
Média geral18 p.p.50 p.p.

Brasileiros são 2,5 a 3 vezes menos polarizados que americanos.

Distância tema a tema — costumes

TemaBrasilEUA
Identidade de gênero3744
Posse de armas3256
Família e casamento2714
Religião e governo2154
Imigração1342
População negra1123
Mulheres e sociedade771
Justiça criminal353

Família e casamento é o ÚNICO tema em que brasileiros são mais polarizados que americanos (27 vs. 14 p.p.).

Justiça criminal tem distância de apenas 3 p.p. no Brasil — consenso quase total em punitivismo, atravessando esquerda e direita.

Distância tema a tema — visão do Estado

TemaBrasilEUA
Programas sociais3055
Escopo de atuação do governo2753
Tamanho do governo2462
Regulação de empresas1261
Eficiência do governo358
Provisão de saúde050

Provisão de saúde tem distância ZERO no Brasil — consenso absoluto de que o governo deve garantir saúde gratuita. Nos EUA, a mesma questão gera 50 p.p. de distância.

Escopo de atuação do governo também é zero — ambos os campos concordam que o governo deve resolver problemas.

O que isso significa para os Desiludidos

Os Desiludidos vivem num país onde a polarização é mais performática e identitária do que substantiva. Há amplo consenso sobre saúde, justiça criminal, atuação do governo. O que divide é identidade de gênero, armas e família — temas culturais que ocupam espaço desproporcional no debate público em relação à distância real entre os campos. Os Desiludidos percebem intuitivamente que a briga é maior que a discordância real.


7. Abertura para mudar de opinião sobre o governo

Potencial de avaliação do governo Lula 3 (Datafolha set/2025 + Locomotiva)

Avaliação atual%Abertos a mudarNão mudariam
Ótimo/Bom33%23% abertos a avaliar mal (= 8 p.p. do total)77% não avaliariam mal
Regular28%54% abertos a avaliar bem (= 15 p.p. do total)46% nada faria avaliar bem
Ruim/Péssimo38%21% abertos a avaliar bem (= 8 p.p. do total)79% nada faria avaliar bem
  • Potencial máximo de aprovação de Lula 3: 56% (33% atuais + 23 p.p. persuasíveis)
  • Piso irredutivelmente negativo: 43% não avaliariam Lula bem independentemente do que fizesse
  • 31% do eleitorado total está aberto a mudar de opinião — mesmo na reta final do governo

O que faria os 23% persuasíveis apoiarem o governo?

Tema%
Economia e custo de vida41%
Administração e transparência19%
Justiça social e desigualdade11%
Educação e saúde7%
Segurança pública2%
Outros/genéricas20%

As demandas concretas, nas palavras dos próprios entrevistados:

  • Economia: “abaixar o valor dos alimentos”, “melhorar o poder de compra”, “diminuir taxa de juros para os pobres”, “reduzir os impostos”
  • Administração: “reduzir os gastos e a quantidade de ministérios”, “acabar com a corrupção”
  • Justiça social: “uma luta contra a desigualdade social como foi feito nos mandatos anteriores”
  • Saúde/educação: “dar mais atenção aos hospitais”, “melhorar a educação e investimento em cultura”

O passaporte para o eleitor Desiludido é a economia concreta — inflação, preço dos alimentos, poder de compra. Guerras culturais o afastam; promessas de gestão eficiente o atraem.


8. Cruzamento com outras pesquisas — quem é o Desiludido demograficamente?

A Locomotiva não fornece demografia detalhada do segmento Desiludidos especificamente. Mas cruzando com a Ipsos/Ipec (rejeição dupla Lula+Bolsonaro, ago/2025) e a More in Common/Quaest (jan-fev/2025), podemos triangular o perfil:

Ipsos/Ipec — quem rejeita os dois igualmente (22% do eleitorado)

VariávelSobre-representação
Idade30% entre 16-24 anos; cai para 16% entre 60+
Renda31% entre quem ganha >5 SM
Escolaridade28% com ensino superior (vs. 16% fundamental)
RegiãoSudeste e Sul: 25% cada (vs. 16% Nordeste)
UrbanizaçãoCapitais e cidades >500 mil: 25%
RaçaBrancos 24% vs. pretos/pardos 20%
ReligiãoSem religião/outras: 26% (vs. católicos 19%)
Voto 202253% de quem votou branco/nulo rejeita ambos

More in Common/Quaest — Desengajados (27%) e Cautelosos (27%)

Os 54% de não-polarizados se dividem em dois sub-perfis distintos:

Desengajados (27%):

  • Apenas 6% com diploma universitário — o segmento menos escolarizado
  • 13% são pretos — maior percentual entre todos os grupos
  • 12% já passaram fome
  • 65% não se identificam com nenhum partido
  • 30% votaram nulo, branco ou não compareceram em 2022
  • Apenas 15% consideram protestos políticos importantes

Cautelosos (27%):

  • 55% ganham menos de R$5 mil/mês
  • 31% são do Nordeste — o grupo mais nordestino
  • 48% católicos — o grupo mais católico
  • 17% rurais — o grupo mais rural
  • Apenas 11% com ensino superior

A síntese: o Desiludido tem duas faces

O “Desiludido de cima” (visível na Ipsos/Ipec) é jovem, urbano, rico, escolarizado, sem religião, do Sudeste/Sul. Rejeita ambos por sofisticação e cansaço com o espetáculo político.

O “Desiludido de baixo” (visível na More in Common) é pouco escolarizado, periférico, nordestino, católico, com insegurança alimentar. Rejeita ambos porque nenhum dos dois resolve seus problemas concretos.

Ambos convergem no desencanto — mas por razões opostas.


9. O mapa de valores dos Desiludidos — cruzamento com a Bateria Navigator (set/2025)

A Bateria de Valores da Navigator pesquisou posições cruzando com quatro clusters ideológicos, dos quais dois correspondem aproximadamente ao perfil Desiludido:

  • Esquerda não-lulista (se posicionam à esquerda mas não citam Lula como líder)
  • Direita não-bolsonarista (se posicionam à direita mas não citam Bolsonaro como líder)

Temas com maior neutralidade (zona centrista)

Tema% neutro — Esq. não-lulista% neutro — Dir. não-bolsonarista
Valores cristãos guiarem leis51%41%
Renda mínima incentiva busca de emprego54%33%
Hoje quem quer trabalhar encontra emprego35%46%
Renda mínima desincentiva busca de emprego40%41%
Ações de Trump sobre o Brasil23%38%
Casamento homoafetivo35%24%

Temas com consenso universal (atravessam todos os clusters)

Tema% que concorda fortemente (total)
Todo brasileiro que quer trabalhar deveria ter direito garantido56%
Governo deve promover acesso ao trabalho52%
Acesso ao trabalho reduz pobreza51%

O trabalho é o valor central que unifica todo o espectro, incluindo os Desiludidos. Não há disputa ideológica real sobre isso.

O “efeito terceira pessoa”

PerguntaChance baixa/muito baixaChance alta
Se VOCÊ recebesse transferência, pararia de trabalhar?59% dizem que não12%
Se OUTROS recebessem, parariam de trabalhar?33%34%

Os Desiludidos (como todos os brasileiros) têm um individualismo moral: “eu trabalho, desconfio que os outros não trabalhariam”. Isso alimenta tanto a crítica ao assistencialismo quanto a defesa de programas sociais como direito — porque o eleitor se vê como merecedor, não como dependente.


10. Síntese analítica — o que define o Desiludido

O que ele É:

  • 27% do eleitorado — o maior segmento individual da segmentação Locomotiva
  • Ideologicamente incoerente por design — mistura posições progressistas (armas, drogas) e conservadoras (aborto) sem conflito interno
  • Volátil — desproporcionalmente feminino, jovem e de baixa renda entre os que mudam de voto
  • Divorciado de partidos — 65% sem identificação partidária (More in Common)
  • Silencioso — não participa de manifestações, não se expressa politicamente em redes

O que ele NÃO É:

  • Não é apolítico — tem opiniões consistentes, mas não as expressa no espaço público
  • Não é moderado no sentido clássico — não ocupa o “meio” em cada tema, mas sim mistura extremos de formas que nenhum partido empacota
  • Não é homogêneo — contém tanto o jovem urbano escolarizado quanto o periférico com insegurança alimentar

O que ele QUER:

  1. Economia concreta — preço dos alimentos, poder de compra, juros (41% da demanda persuasível)
  2. Gestão eficiente — cortar gastos, reduzir ministérios, acabar com corrupção (19%)
  3. Trabalho como valor moral — não ideologia sobre tamanho do Estado
  4. Que parem de brigar — a polarização afetiva o exaure mais que a substantiva

Por que ninguém o conquista:

  • A esquerda oferece Estado e redistribuição, mas ele é conservador nos costumes e desconfia do assistencialismo para “os outros”
  • A direita oferece moralismo e empreendedorismo, mas ele depende do Estado para saúde e quer que o governo resolva problemas
  • O centro institucional (Centrão) é pragmático demais para oferecer identidade ou narrativa
  • Nenhum candidato da “terceira via” conseguiu empacotar o que ele quer: conservadorismo moral + pragmatismo econômico + eficiência do Estado + ausência de guerra cultural

Fontes

Ver também